O Direito à Face
Vanessa Del Bel
Há uma textura específica no tempo que habitamos, e Vanessa Del Bel decidiu tocá-la com as próprias mãos. Após 25 anos imersa na aridez das métricas corporativas, a artista transmutou a sua trajetória, abandonando a rigidez dos números para mergulhar nas profundezas anímicas. Com a psicologia como alicerce teórico, ela traduz afetos, arquétipos e as dimensões mais intrincadas da subjetividade para a matéria tátil da pintura.



Contemplar a obra de Vanessa não é um exercício de passividade; é um encontro de alteridades. Sua prática repousa na vontade visceral de mapear o feminino através de múltiplas camadas. A artista recusa a "beleza" como preceito estético esvaziado; ao contrário, sua pintura ergue-se como uma autêntica ética do acolhimento. Cada pincelada — seja na densidade do óleo ou na fricção do carvão — forja um manifesto silencioso: a afirmação de que cada configuração de existir merece apreço. Onde a sociedade impõe supressão e personas fabricadas — dinâmicas de poder que ela observou com acuidade em sua vivência empresarial —, Vanessa oferece a celebração genuína da diferença.
O centro gravitacional de sua poética reside no olhar. Em seus retratos — de arquétipos ancestrais a figuras históricas —, os olhos não são janelas passivas; são vórtices. Eles convocam, acolhem, interrogam e, por vezes, confrontam. Vanessa não pinta para alcançar um ideal apaziguador, mas para validar existências. Cada rosto é uma declaração de soberania: "Eis-me aqui, e minha singularidade é inegociável".


Essa ética ganha corpo monumental em obras como o Biombo da Existência Feminina (exposto na Assembleia Legislativa de São Paulo). Ali, a arte abandona a moldura para se tornar portal político. Maria da Penha, Liniker, Bertha Lutz e Nise da Silveira não aparecem como ícones congelados, mas como forças vivas que compõem um organismo único de resistência. O biombo não divide o espaço; ele o expande, obrigando o espectador a encarar a pluralidade do feminino — da mulher anciã e da cientista à mulher do povo que sustenta o mundo com sua invisibilidade cotidiana.



Em séries como Um Olhar Feminino e Inside the Piano Gallery, ou na tela Palesa (que representa o Brasil no projeto global da Galeria Ottaro_Swiss), Vanessa constrói espelhos. Com mais de 80 peças em seu acervo, sua produção é uma ponte que conecta o pessoal ao universal, o íntimo ao político. Ao percorrermos a textura de suas obras, aceitamos o convite para ler a própria humanidade. Ela nos recorda que a arte não existe apenas para ser admirada, mas para nos ensinar, finalmente, a enxergar o outro em sua dignidade irreduzível.






Que esta peça inspire reflexão, desperte empatia e fortaleça o compromisso com a construção de um país onde todas as mulheres, em toda sua pluralidade, possam existir com dignidade, respeito, plena liberdade e proteção.


