100% “Neo-Bossa”

Theo Bial encontra sua voz na Bossa Nova ao lado de mestres como Roberto Menescal
Aos 27 anos, o cantor e compositor Theo Bial traçou um caminho inverso ao de muitos artistas brasileiros. Enquanto foi para Boston estudar hip-hop e R&B na prestigiada Berklee College of Music, bastou uma aula sobre samba e bossa nova — e as imagens do Rio de Janeiro na tela — para redescobrir a força da música que sempre esteve ao seu redor.
Filho do jornalista Pedro Bial e da atriz Giulia Gam, Theo não nega a influência do sobrenome, mas constrói sua identidade artesanal e independente, entre o cavaquinho e o violão.Com o mestre, Roberto Menescal, embarcou com a MPB e a bossa nova para uma turnê de doze apresentações no Japão, consolidando uma carreira que também presta homenagem a Chico Buarque em seu mais recente trabalho.
Em conversa com a ArtNow Report, ele fala sobre saudade, liberdade criativa, parceria com Menescal e os próximos passos de uma trajetória que se firma longe dos holofotes das grandes gravadoras, mas perto das raízes da música brasileira.
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O Início e a Formação na Berklee
A paixão de Theo pela música começou cedo, aos 10 anos, quando aprendeu a tocar violão por influência de sua mãe. Inicialmente focado em pop/rock e soul music, o artista encontrou um ponto de virada ao se deparar com o repertório de Djavan. Após concluir o ensino médio, Theo buscou aprimoramento na prestigiada Berklee College of Music, em Boston, nos Estados Unidos, onde cursou um programa de verão.
Foi durante essa experiência internacional que ele percebeu a força e o valor da música brasileira no exterior, especialmente a bossa nova e o samba, o que o impulsionou a se aprofundar nessas raízes. Paralelamente à sua formação musical, Theo também cursou Filosofia, uma disciplina que, segundo ele, o auxilia no processo criativo e na composição, especialmente ao criar conceitos mais implícitos e profundos para suas letras.
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Discografia e Parcerias
Do EP ao "Neo-Bossa
A discografia de Theo Bial começou a ser desenhada com o EP Presente em 2017, seguido pelo álbum Do amor à sabedoria em 2019. Em 2021, ele lançou o EP “Pra sonhar”, um trabalho que marcou uma nova fase e trouxe uma sonoridade mais detalhista, inspirada na bossa nova e no jazz. Um dos pontos altos de “Pra sonhar” foi a faixa "Mais uma vez", que marcou a primeira parceria de composição de Theo com seu pai, Pedro Bial.
Theo criou a melodia no piano, e Pedro Bial escreveu a letra, resultando em uma canção no formato voz e violão, característica da bossa nova, que exalta as lamentações de um amor partido. A evolução de sua carreira culminou nos álbuns mais recentes: Vertigem (2022) e Neo Bossa (2023).
Em 2024, Theo lançou o álbum Theo Canta Chico, um projeto de intérprete dedicado a releituras de Chico Buarque, com arranjos que trazem forte influência do samba, contando com a participação de músicos ligados à linhagem de Martinho da Vila, como Raoni e Guido Ventapane.
A consagração de sua identificação com a bossa nova veio com a parceria com o mestre Roberto Menescal, um dos pioneiros do gênero. Menescal elogiou a bossa de Theo e o convidou para uma colaboração, resultando no single Brisa Que Mora No Mar, lançado em julho de 2025. A parceria se estendeu para uma composição inédita, "Vem Cá" (título provisório), com letra de Theo e música de Menescal.
Shows e Turnê Internacional no Japão: Theo Bial vem se apresentando em casas de prestígio no Brasil, como o Blue Note Rio e Blue Note São Paulo, com o show de lançamento de Theo Canta Chico. Seu talento e sua conexão com a bossa nova abriram as portas para o mercado internacional. Em julho de 2025, Theo embarcou em sua primeira turnê internacional no Japão, um país com grande apreço pela música brasileira.
A turnê incluiu dez apresentações em Tóquio: Menescal destacou a importância da presença de Theo na turnê, vendo-o como uma "nova conquista" e um elo entre gerações, elogiando-o como "bom cantor, bom compositor também, vai muito bem no palco".
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A "Neo-Bossa" e a Tradição
1 - ArtNow Report - Você se identifica com o termo "neo-bossa"? Como você enxerga o desafio de inovar num gênero tão clássico e reverenciado como a bossa nova?
Theo Bial - Na verdade, esse nome surgiu de um comentário que o Nelson Motta fez em um vídeo que postei, cantando e tocando violão nas redes sociais... Ele comentou algo como: “100% "neobossa"... Esse mesmo vídeo me abriu portas pra ir gravar no ForestLab, estúdio 100% analógico gerido pelo produtor Lisciel Franco. Foi lá que gravei uma série de músicas com o Raoni Ventapane e o Guido Ventapane, que se tornou o álbum “Neobossa”. Eu não sinto que tenho que inovar. Eu gosto muito de Bossa Nova e Samba e tento ser fiel aos compositores sempre. Acho que isso já é um grande desafio. Se eu conseguir inovar, maravilha!
2 - AN.: Como surgiu o convite para a parceria com Roberto Menescal, e qual foi o maior aprendizado no trabalho com um dos mestres fundadores da bossa nova, tanto no single "Brisa Que Mora No Mar" quanto na composição "Vem Cá"?
TB.: Na verdade, “Vem Cá” foi um nome provisório pra música “Brisa que Mora no Mar”. Mas já temos outra parceria, vindo aí. O convite foi dele, ele me mandou uma melodia e me desafiou a escrever a letra... Eu estava um tempão sem conseguir compor e isso me motivou. Acho que simplesmente estar com o Menescal já alimenta a minha sensibilidade e musicalidade. Além da parte musical, também aprendo muito com ele como ser humano. Ele é uma pessoa admirável.
3 - AN.: Como foi a experiência de levar sua música para o Japão, um mercado tão apaixonado pela bossa nova, e dividir o palco com ícones como Menescal e Lisa Ono?
TB.: Pra mim foi um sonho. Até hoje às vezes me pego lembrando e nem acredito... Eles são muito atenciosos e prestam atenção em cada detalhe. A Lisa foi muito generosa, me emprestou o violão dela, foi aberta pra gente criar coisas juntos também... Foram oito apresentações no Blue Note Tokyo com Menescal e Lisa e depois eu fiz mais duas em outro Blue Note, acompanhado de percussionistas Japoneses, o Kan e a Honami, magníficos! Muito gratificante ver que a música brasileira é tratada com tanto esmero por eles. Pretendo voltar, Menescal já foi mais de 30 vezes...
4 - AN.: O que o motivou a dedicar um álbum inteiro à obra de Chico Buarque, e como foi o processo de trazer a sonoridade do samba, com a percussão dos netos de Martinho da Vila, para canções tão conhecidas?
TB.: Acredito que a obra do Chico, principalmente nos primeiros discos, tem um conteúdo de samba e uma forma de bossa nova, o que resultou na MPB. Me identifico muito com a atmosfera carioca presente na obra dele também. A direção do álbum foi feita em conjunto, com supervisão da Analimar Ventapane. Foi tudo muito orgânico, pois a ideia inicial era fazer um show! Depois que surgiu a vontade de fazer o álbum.
5 - AN.: Como a sua formação em Filosofia se manifesta no seu processo de composição e na profundidade das suas letras, como você mencionou em entrevistas anteriores?
TB.: Na verdade, eu não cheguei a me formar, cursei dois anos que acho que foram importantes pra mim. Sempre me interessei muito por Filosofia. Eu acredito também que a leitura é essencial para manter a criatividade funcionando e para compor!
6 - AN.: A canção "Mais uma vez" marcou sua primeira parceria com seu pai. Como é a dinâmica de criação entre vocês, e essa troca profissional abriu portas para futuras colaborações?
TB.: Na verdade, foi algo bem despretensioso. Eu fiz uma melodia e mandei pra ele, que deu umas ideias de letra, e fomos lapidando a música juntos. A música “Azul”, o processo também foi parecido. Com certeza teremos mais parcerias juntos, ele é um poeta...
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7 - AN.: Qual foi o momento exato na Berklee College of Music em que você percebeu a força da bossa nova e do samba no exterior, e como isso redefiniu sua direção musical?
TB.: Eu lembro que fui pra lá querendo estudar HipHop, RnB, Soul e todos esses ritmos americanos. Até que tive uma aula lá sobre Samba e Bossa Nova. A aula era até superficial, claro, mas eu lembro que o professor passou o documentário “Coisa Mais Linda” e aquelas imagens do Rio de Janeiro foram, me dando uma saudade... hehehe! Eu também senti que poderia ter contribuído mais para a aula e que eu deveria estar mais fundamentado sobre esse assunto, algo que estava, tão próximo de mim. Desde então, decidi me dedicar a estudar a música brasileira e, principalmente, a Bossa Nova e o Samba.
8 - AN.: Em entrevistas, você já manifestou o desejo de atuar. Esse interesse ainda persiste? Como você concilia a carreira musical com a possibilidade de explorar o lado da atuação, herdado de sua mãe, Giulia Gam?
TB.: Gostaria, sim, mas sei que é preciso muito trabalho e estudo pra atuar. Acho que tudo depende de uma oportunidade, uma circunstância... Se eu tivesse um convite interessante, com certeza iria...
9 - AN.: Você mencionou que se tornou mais detalhista e artesanal no processo de produção. Qual é a sua rotina de composição e como você decide o momento de levar uma ideia do piano ou do violão para o estúdio?
TB.: Na verdade, eu não tenho uma rotina de composição... quando tenho tempo e uma ideia, eu tento compor alguma coisa... Acho que tudo depende do que a gente quer dizer naquele momento, se tem algo a dizer, alguma ideia...
10 - AN.: Quais são os maiores desafios e as maiores recompensas de manter uma carreira musical independente no cenário atual da MPB?
TB.: Acho que o maior desafio é não ter o investimento de uma grande gravadora para divulgação, gravação e produção. Por outro lado, ter liberdade artística é muito bom.
11 - AN.: Você é autodidata no cavaquinho e o violão é parte fundamental da sua identidade. Como esses instrumentos moldam a sonoridade que você busca em seus arranjos?
TB.: Eu gosto sempre de estar estudando música, é fundamental. O violão é mais natural pra mim porque eu estudo há 10 anos... o cavaquinho eu comecei a estudar mais como uma brincadeira, para poder tocar em rodas com amigos e tudo... Hoje eu uso muito o cavaquinho quando estou tocando com outro violonista, a sonoridade complementa muito bem. Às vezes dois violões podem ficar confusos.
12 - AN.: Após a turnê no Japão e o lançamento de Theo Canta Chico, quais são seus próximos projetos? Há planos para um novo álbum autoral ou para explorar outros gêneros musicais?
TB.: Ainda não tenho planos de gravar nada. Investi muito nesse álbum do Chico. Quero fazer shows e divulgar esse trabalho pelo menos durante um ano... Mas é claro que já tenho feito coisas novas, só é muito cedo pra falar...
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