O Azul que Permanece
Simone Momente
Há cores que decoram e cores que habitam. O azul de Majorelle pertence a uma terceira categoria, mais rara: cores que exigem. Que impõem ao olho uma pausa involuntária, que reordenam o ritmo interno de quem as encontra e não permitem a indiferença. Ao se aproximar da obra de Simone Momente, o espectador descobre que não está diante de uma representação da vila marroquina de Jacques Majorelle — está diante de uma pergunta pintada de azul: o que sobrevive quando o abandono se aproxima?



A resposta não é verbal. É cromática, tátil, estratificada em camadas de papel e aquarela como se a própria memória tivesse textura. Simone Momente, artista que há anos investiga a intersecção entre arquitetura e afeto — do Copan ao Carnegie Hall, da Torre Eiffel ao Teatro Amazonas —, chega ao Jardim Majorelle não como turista nem documentarista. Chega como quem reconhece num lugar a mesma inquietação que já carregava: como a beleza resiste ao esquecimento?
Na obra de Simone, o azul Majorelle não é cor de fundo — é personagem. Ela própria o define com uma precisão que só a convivência longa com a matiz permite: “o azul Majorelle não pede permissão, ele se impõe como um portal aberto. É uma cor que não hesita.” Essa ausência de dúvida torna o trabalho inquietante no melhor sentido: não há emaciação, não há desculpa pela intensidade. O azul avança.

Para a artista, a transformação de uma vila em monumento não ocorre por decreto, mas no instante em que a estrutura física passa a carregar o peso de uma decisão humana: a decisão de cuidar. Jacques Majorelle construiu um reino particular no coração de Marrakech com a obsessão de quem sabe que a beleza não se sustenta sozinha, que ela exige curadoria. Quando o pintor morreu e o jardim começou a definhar, o que estava em risco não era apenas uma propriedade, mas uma forma de ver o mundo.
Quando Yves Saint Laurent e Pierre Bergé adquiriram o jardim em 1980, salvando-o da especulação imobiliária, realizaram um gesto que Simone descreve como profundamente simbólico: “Preservar não é congelar no tempo, é escolher quais memórias merecem continuar respirando.” Essa frase poderia ser o mantra de toda a sua pesquisa. De obra em obra, Simone não documenta — ela elege. Escolhe quais afetos merecem camadas, quais estruturas merecem sobreviver na tela, quais histórias precisam ser contadas antes que o tempo as dissolva.


A técnica de colagem que define sua linguagem autoral é inseparável desse pensamento. Cada folha de papel recortada e sobreposta é um gesto de preservação: fragmentos que se recusam a desaparecer, que insistem em coexistir, criando uma superfície mais densa do que qualquer um deles seria capaz de produzir isoladamente. No Jardim Majorelle, essa lógica encontra seu espelho perfeito. O jardim também é uma colagem — de espécies botânicas, de arquitetura e de imaginário coletivo.
Nesse processo, a sobreposição de linguagens se materializa como colagens afetivas que constroem identidade. O que Saint Laurent fez com o azul no tecido, Simone faz com o azul no papel: retira a cor do terreno do decorativo e a instala no terreno simbólico. O azul Majorelle deixa de ser luxo material para se tornar, nas palavras da artista, “luxo sensorial — a possibilidade de se sentir profundamente.”
Há risco nessa aproximação — e Simone o reconhece. Aproximar-se de um azul “perfeito demais” pode provocar a parálise criativa diante do intocável. A saída que ela encontrou é profundamente humana: introduzir texturas e o imperfeito. “Nada é perfeito quando atravessado pelo tempo, e é aí que ele se torna humano.” Essa convicção transforma a obra em algo que o registro fotográfico jamais conseguiria: não uma reprodução do jardim, mas uma tradução de sua alma.
O que essa imersão acrescentou à sua investigação? Simone responde com uma frase que é, ao mesmo tempo, conclusão e abertura: “O abandono não é um destino inevitável, é a ausência de cuidado. Quando há afeto, há permanência.” Essa é a tese que atravessa sua obra inteira e que aqui encontra sua formulação mais intensa: não é a solidez da estrutura que garante a sobrevivência, mas a qualidade da atenção que lhe é dedicada.
O azul Majorelle permanece no olhar mesmo depois que se fecham os olhos. Isso Simone sabe. É por isso que sua obra não retrata o jardim — ela continua o jardim. Adiciona uma camada a mais na sua história de sobrevivência, uma voz a mais no coro de todos que recusaram seu esquecimento. E nessa recusa, há algo de profundamente editorial: Yves Saint Laurent preservou o lugar; Simone Momente preserva os estados de alma.



