O Ponto em que Termina

Rostislaw Tsarenko

A imagem não nasce de um único olhar ou de um traço contínuo; ela se acumula. Na obra do artista ucraniano Rostislaw Tsarenko, o espaço em branco do papel é conquistado pela insistência. Cada ponto microscópico de nanquim funciona como uma fração de segundo, uma respiração contida na caneta de ponta fina. Olhar para suas criações é compreender que o tempo, na arte, não é uma linha que avança em direção ao fim, mas uma matéria silenciosa que se deposita sobre a superfície do mundo, até tornar o invisível visível.

artnow-report-rostislaw-tsarenko-artista-brasileira-arte-contemporanea
artnow-report-rostislaw-tsarenko-artista-brasileira-arte-contemporanea

Existe uma dimensão cinematográfica nessa insistência da duração. Não pela busca de uma narrativa linear, mas pela própria textura do visível. Assim como o grão de uma película vibra na escuridão de uma sala de projeção, os milhões de pontos de Tsarenko conferem uma pulsação secreta à aparente imobilidade do desenho. O enquadramento permanece fixo, mas a matéria se move. Trata-se de uma montagem existencial: vinte, trinta horas condensadas em um retângulo de papel, onde o tempo deixa de ser um conceito para tornar-se matéria visível.

artnow-report-rostislaw-tsarenko-artista-brasileira-arte-contemporanea
artnow-report-rostislaw-tsarenko-artista-brasileira-arte-contemporanea
artnow-report-rostislaw-tsarenko-artista-brasileira-arte-contemporanea

Admirador confesso da estatuária clássica, Rostislaw Tsarenko opera um milagre inverso ao da tradição escultórica. Se o mestre renascentista desvelava a forma humana libertando-a de dentro de um bloco sólido de mármore, o artista ucraniano ergue suas esculturas bidimensionais a partir do vazio absoluto. São monumentos ficcionais que parecem carregar a poeira e o desgaste de séculos em museus imaginários. Sua relação com a tradição, porém, jamais é arqueológica. A iconografia clássica surge como linguagem, não como citação. O mármore deixa de ser matéria para tornar-se memória; a luz deixa de apenas revelar as formas para esculpir o invisível. O chiaroscuro não organiza somente os volumes — organiza estados de consciência, onde a sombra deixa de ser ausência para tornar-se origem do mistério.

artnow-report-rostislaw-tsarenko-artista-brasileira-arte-contemporanea
artnow-report-rostislaw-tsarenko-artista-brasileira-arte-contemporanea

Nesse território rigorosamente monocromático, a pedra fictícia parece pulsar com mais vigor do que a própria carne. O surrealismo nunca se manifesta como ruptura ou espetáculo, mas como uma consequência natural da interioridade. Tudo o que é complexo, espiritual ou invisível resolve-se na unidade elementar do ponto. Cada imagem nasce da repetição paciente de um gesto quase imperceptível, até que o fragmento se transforme em totalidade.

artnow-report-rostislaw-tsarenko-artista-brasileira-arte-contemporanea
artnow-report-rostislaw-tsarenko-artista-brasileira-arte-contemporanea
artnow-report-rostislaw-tsarenko-artista-brasileira-arte-contemporanea

Embaixador da Royal Talens desde 2019, com obras em coleções por boa parte da Europa e colaborações que vão de músicos a marcas — de Holly Bowling à TTSWTRS —, Tsarenko transporta esse rigor para cada nova superfície. Talvez por isso o título de seu livro-álbum, A Vida Começa com um Ponto, o Ponto em que Termina, soe menos como uma metáfora e mais como uma declaração estética: entre o primeiro e o último toque da caneta não existe apenas um desenho. Existe a construção silenciosa de uma existência inteira.

Ao nos afastarmos da obra, os pontos desaparecem na ilusão perfeita da forma; ao nos aproximarmos, a forma se desintegra em uma constelação infinita de poeira preta. Ficamos retidos nesse limiar exato entre a dissolução e o reconhecimento. Resta na retina a impressão de uma estátua que, na iminência de respirar, escolheu o eterno instante antes do movimento.

artnow-report-rostislaw-tsarenko-artista-brasileira-arte-contemporanea
artnow-report-rostislaw-tsarenko-artista-brasileira-arte-contemporanea