Regina Picoli
O Lado de Cá da Tela
Na obra que assina a capa da edição internacional, Regina Picoli faz o gesto menos esperado de todos: tira Marilyn Monroe da tela e a senta na plateia. A sala está vazia, e a sessão, ao que tudo indica, já terminou.
Na edição anterior da ArtNow Report, Regina Picoli assinou a capa com uma figura sem rosto, um corpo em azul índigo que recusava o olhar de quem o observava. Agora escolhe o oposto exato: o rosto que dispensa apresentação, reconhecível por uma mecha, um sinal, uma curva vermelha da boca.
A resposta está na composição. Marilyn não aparece projetada nem iluminada por um facho vindo da cabine, como o mundo se acostumou a vê-la; aparece sentada, ocupando uma poltrona na mesma altura do olhar de quem se acomodaria na fileira ao lado. Ao colocá-la do lado de cá, entre as fileiras e no escuro, Regina devolve à mulher que foi transformada em espetáculo a condição bem mais simples de quem assiste.
O detalhe que sustenta a obra, no entanto, é a sala vazia. Fileiras de poltronas de veludo vermelho se estendem até o fundo da tela, com as tachas douradas alinhadas como uma pontuação que se repete, e nenhuma está ocupada. A ausência de público não é acidente de composição, mas o próprio assunto, e dela nasce a única pergunta que a pintura precisa fazer: o que resta de uma pessoa quando a plateia vai embora.
Regina responde com luz. Duas arandelas mantêm a sala num âmbar quase extinto enquanto o fundo se dissolve numa escuridão que corre como cortina fechada, e no meio dessa penumbra o rosto concentra toda a claridade disponível. A construção é frontalmente barroca, e quem acompanha seu trabalho reconhece a procedência: a luz do barroco sacro que a artista traz de Martinópolis reaparece aplicada a um interior profano. Veludo, ouro nas bordas, fileiras paralelas, corredor central e silêncio compõem, ponto por ponto, o repertório de uma nave — e ela termina pintando o cinema como quem pinta um templo depois que a missa acabou.
A escolha do assunto parece contrariar sua trajetória e na verdade a confirma. Regina construiu sua reputação retratando aquilo que precisa de defesa, do mico-leão-dourado ameaçado a Cartola em sua dignidade sem disfarce, e Marilyn pertence à mesma família dessas figuras. Também ela foi consumida até a exaustão e exposta a um olhar que raramente pediu licença, de modo que pintá-la sem público funciona como gesto de restituição.
Convém reparar que a mulher desta tela não sorri para câmera alguma, e sim repousa. O braço no encosto, as pálpebras baixas, a postura de quem descansa entre uma coisa e outra: embora o vestido preto e as luvas mantenham o repertório da personagem pública, a atitude do corpo pertence à intimidade. O realismo, aqui, serve a esse acesso e nunca ao contrário: quanto mais exata a superfície, mais próxima fica a pessoa.
A esta altura, a obra já deixou de falar apenas sobre Marilyn Monroe. A sala vazia é reconhecível para qualquer pessoa que tenha ocupado um lugar público e voltado sozinha para casa, porque o aplauso sempre termina e alguém sempre permanece sentado enquanto o restante se levanta e sai. Coerente, aliás, com o que a artista já afirmou nesta revista: o essencial não grita, mas permanece. E cem anos depois do nascimento da mulher que originou essa imagem, a pintura oferece uma versão dela que quase ninguém tinha visto — não a que ilumina a sala, mas a que ficou sentada nela, no escuro, sem plateia e sem pressa, depois que todos os outros já foram embora.
Instagram: @reginapicoli.art
