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Corpo sem Rosto

Regina Picoli

Não há rosto. E é justamente essa ausência que transforma a obra em declaração. Na pintura que Regina Picoli criou para a capa desta edição internacional, uma figura com a cabeça erguida e levemente virada ocupa a tela com uma presença quase escultórica: a pele e o pescoço são inteiramente banhados em azul índigo profundo — denso, lúcido, de uma superfície que parece ao mesmo tempo fria como pedra e viva como água.
O gesto da cabeça levantada não é esquivo: é altivo. A figura não foge do olhar — ela simplesmente não o concede. Ao fundo, a névoa escura com laivos de âmbar queimado não é cenário: é pressão, é o mundo que circunda. E no pescoço alongado, único ponto de luz fria da composição, um colar de diamantes pousa como uma coroa — joia de quem não precisa da aprovação do olhar alheio para existir em plenitude. O corpo sem face não é anônimo. É universal. E, por ser universal, é profundamente, inescapavelmente eterno.
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O azul que Regina escolheu para esta obra não é o azul da decoração nem o do distanciamento simbólico. É um azul que habita — que toma o corpo como território e o transforma em outra coisa: em monumento, em arquitetura, em afirmação. Há na história da pintura uma longa tradição de corpos azuis — do klein que fez do índigo uma assinatura do absoluto ao Picasso que usou o azul para mapear a solidão — mas o que Regina faz aqui é distinto. Seu azul não abstrai nem lamenta: ele afirma.
A superfície hiper-realista da pele, construída com a precisão obsessiva que define sua técnica, torna o azul palpável, tátil, irrecusável. Não é uma metáfora: é uma pele. E essa pele exige ser vista.
Formada pela tradição do realismo e do hiper-realismo, e marcada desde a infância pela solenidade das pinturas barrocas de Martinópolis, Regina Picoli construiu ao longo dos anos uma linguagem em que a precisão técnica nunca é um fim — é sempre um meio a serviço da emoção. Seus óleos sobre tela exigem parada: não se entregam à primeira leitura, acumulam camadas de sentido que só se revelam a quem tem paciência de permanecer. Cada pincelada é um gesto de escuta — ela pinta como quem ouve, como quem espera que a imagem diga o que ainda não foi dito.
Nesta obra de capa, esse método atinge seu ponto mais alto: a escolha de não mostrar o rosto é, paradoxalmente, o gesto de maior exposição. É como se, ao subtrair a identidade individual, Regina devolvesse à figura toda a amplitude de uma experiência coletiva — e nos convidasse, como espectadores, a ocupar aquele corpo azul com nossa própria história.
Ao subtrair o rosto, Regina devolve à figura toda a amplitude de uma experiência coletiva.
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Instagram: @reginapicoli.art
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