O Samba que se Vê
Regina Picoli
Há encontros que não ocorrem no tempo, mas na sensibilidade. Quando Regina Picoli — artista cuja trajetória é marcada pelo rigor do realismo e pela delicadeza da alma — se debruça sobre a figura de Cartola, o que vemos na tela não é apenas um retrato, mas uma partitura visual. Regina, que traz em seu DNA artístico a luz do barroco sacro de Martinópolis e a precisão dos grandes mestres, encontrou no poeta da Mangueira o mesmo "silêncio que organiza o gesto" que ela cultiva em seu ateliê.


Nesta obra exclusiva para a ArtNow Report, o realismo de Regina transcende a técnica para alcançar a essência. O foco, como ela mesma define, reside no olhar: mesmo velada pelos óculos escuros, a visão de Cartola revela-se como uma "sensibilidade rara" que enxergava o mundo com dignidade e sem disfarces. É uma pintura que exala versos silenciosos. Ao percorrer a superfície da tela, sentimos a textura de uma vida que transformou dor em beleza, onde cada pincelada parece respeitar o tempo da emoção, tal qual um samba que não se apressa, mas respira.
Para a artista, o instrumento que melhor traduz seu ofício é o violão — pela intimidade, pelo toque direto na matéria e pelo diálogo humano. Em sua tela, o pincel atua como as cordas de nylon, vibrando em um compasso que une a resistência da cultura brasileira à suavidade da arte.
Homenagear Cartola é, para Regina Picoli, um ato de preservação e reverência. Assim como ela aprendeu a ouvir o sussurro da Amazônia ou a capturar a alma da "Dama de Ferro" em Paris, aqui ela imortaliza a alma do Brasil. Sua obra nos lembra que a arte fala diretamente ao coração, dispensando explicações. No universo de Regina, Cartola não é apenas um ícone do passado; ele é uma presença viva que pulsa no núcleo da obra, provando que a verdadeira beleza nasce da vida vivida com verdade. Nas mãos desta criadora, o realismo é a forma mais pura de poesia.
"O essencial não grita: permanece. Minhas telas querem exalar versos silenciosos, como a memória que fica e a emoção que não precisa de palavras."
Nesta releitura, Regina Picoli não apenas documenta um ícone; ela oferece abrigo à sua história. O gesto de pintar torna-se um agradecimento à cultura que a formou. Diante de sua tela, sentimos que a música de Cartola encontrou um novo lar — uma partitura visual onde o samba vibra com a suavidade que só a arte de quem sabe ouvir o silêncio pode transmitir.


