Faces da Música
Rafael Chaves
Há um som que precede a imagem. No ateliê de Rafael Chaves, o silêncio não é vazio; é compasso. Antes que o lápis toque o papel, existe uma escuta — uma sintonia fina que busca capturar não apenas a anatomia de um rosto, mas a vibração de uma voz. Para esta edição de Música que se Vê, Rafael não nos entrega apenas retratos; ele nos oferece frequências. Ao debruçar-se sobre os titãs da MPB — Caetano, Gil, Belchior, Djavan, Elis e Chico — o artista opera uma tradução sinestésica: converte melodias em luz e harmonias em sombra, revelando que a pintura é, em sua essência, uma música silenciosa.


A trajetória de Rafael, autodidata nascido em Brasília, é marcada por uma dualidade fascinante. Sua formação em Gestão lhe conferiu o rigor, a disciplina do método; a arte lhe devolveu o caos sensível, a pulsação. É nessa intersecção que sua obra respira. Ao desenhar, ele busca o mesmo equilíbrio de uma composição musical: ritmo, pausa e respiração. O atrito do grafite sobre a textura do papel deixa de ser um gesto mecânico para se tornar percussão, uma batida constante que dita o andamento da obra.
Nesta série dedicada à música brasileira, o que fascina o artista não é apenas a fama, mas a capacidade desses ícones de criarem "pontes entre o íntimo e o coletivo". Rafael atua como um luthier do traço, onde sua arte se torna a partitura visual do que cada um desperta em nós. Ele traduz a "melodia" intrínseca de cada personalidade: a cor harmônica de Djavan, a espiritualidade luminosa de Gil, a inquietação grave de Belchior, a reinvenção constante de Caetano e a intensidade visceral de Elis Regina.
A sinestesia em sua obra atinge o ápice no retrato de Chico Buarque. Inspirado pela canção "Construção", Rafael buscou transpor a estrutura arquitetônica da música para o papel. Como em um projeto de engenharia poética, as linhas carregam pausas, densidades e intensidades, como se cada traço fosse uma nota musical que respeita o ritmo da canção, revelando uma arte simultaneamente sólida e fluida.
O artista se coloca, portanto, como um tradutor de atmosferas. "A melodia está no ritmo das linhas, na densidade dos tons, na maneira como o preto e o branco dialogam com as cores do fundo", afirma. Em suas mãos, o retrato deixa de ser estático para se tornar topografia emocional. O que fica é a certeza de que, em suas telas, a música ganha corpo e se reafirma como a linguagem mais profunda da existência.
Diante de sua obra, o silêncio torna-se impossível: cada retrato continua a cantar, provando que a memória, quando desenhada com alma, possui a mesma eternidade de um refrão.





