Terapia em Saturação

Prince Gyasi

Prince Gyasi tem sinestesia — condição neurológica que embaralha os sentidos de modo que cores são percebidas como sons, como pressão, como temperatura emocional que a linguagem comum não nomeia. Isso não é detalhe biográfico: é a chave de toda a sua obra. Quando Gyasi fotografa, ele não compõe; ele transcreve o que o corpo já sabe antes de qualquer decisão consciente. A câmera chega depois.
O resultado é uma imagem que opera em dois níveis simultâneos: o da representação — corpos reais, ruas reais, Accra — e o de algo que só pode ser chamado de frequência. Uma vibração cromática que o espectador recebe antes de entender. Não à toa, o próprio artista define seu trabalho como terapia pela cor. Não como metáfora: como tese.
artnow-report-arte-de-todas-as-formas-art-artistic-obra-de-arte-a-melhor-revista-de-arte
artnow-report-arte-de-todas-as-formas-art-artistic-obra-de-arte-a-melhor-revista-de-arte
artnow-report-arte-de-todas-as-formas-art-artistic-obra-de-arte-a-melhor-revista-de-arte

O iPhone como Manifesto

Gyasi nasceu em Accra, Gana, em 1995, e começou a fotografar aos 16 anos. Quando adquiriu seu primeiro iPhone em 2014 e o adotou como instrumento principal, a escolha não foi pragmática — foi política. Num mercado dominado por equipamentos caros e por uma ideia de excelência técnica que excluía quem não tinha acesso a eles, Gyasi propôs a pergunta inversa: e se a ferramenta mais democrática possível produzisse as imagens mais exigentes?
A resposta está em sua obra: fotografias que manipula digitalmente até o limite em que a fronteira entre imagem e pintura se dissolve. "Você deveria ficar confuso sobre se o que está vendo é uma pintura ou uma fotografia", disse. "Se você não ficou confuso, significa que falhei." A confusão, aqui, não é falha de leitura — é o destino da obra.

Accra como Poética

Toda a produção de Gyasi parte de Jamestown, bairro histórico e periférico de Accra onde sua mãe nasceu e onde ele co-fundou a BoxedKids, organização voltada à educação de crianças em situação de vulnerabilidade. Os modelos de suas composições são tirados das ruas que ele conhece desde sempre. Mas Gyasi recusa qualquer aproximação documental ou paternalista: não fotografa a precariedade, fotografa a dignidade que coexiste com ela.
Contra a narrativa hegemônica que enquadra a África pela ausência, ele constrói imagens de uma presença quase excessiva — corpos que se impõem contra fundos saturados, silhuetas que a cor envolve como proteção. Maternidade, paternidade, infância: os eixos em torno dos quais toda a sua poética orbita, com uma consistência que faz de cada obra individual um capítulo de um argumento mais longo sobre pertencimento e beleza.
artnow-report-arte-de-todas-as-formas-art-artistic-obra-de-arte-a-melhor-revista-de-arte
artnow-report-arte-de-todas-as-formas-art-artistic-obra-de-arte-a-melhor-revista-de-arte

Quando a Arte Migra para o Tecido — A Balmain

A relação de Gyasi com a Balmain começou em 2022, quando Olivier Rousteing o convidou para criar a campanha da coleção Petit-Prince — inspirada em Saint-Exupéry, fotografada em Accra com moradores de Jamestown como modelos. O resultado ultrapassou a função de campanha e se instalou como obra.
Na coleção masculina Outono/Inverno 2024, a parceria atingiu outra escala. Rousteing reproduziu as fotografias hipercromáticas de Gyasi diretamente sobre tecidos — jaquetas, blusões, peças de alfaiataria — transformando cada look num suporte e a passarela da Grande Halle de La Villette numa galeria em movimento. Era a imagem de Accra desfilando em Paris, sem tradução e sem concessão.
Sobre o que os aproxima, Gyasi foi direto: "Percebo que Olivier e eu compartilhamos uma conexão profunda e uma visão comum. Talvez porque ambos parecemos destinados a permanecer sempre um pouco de fora." A declaração revela mais do que afinidade estética: uma identidade partilhada, a de criadores que construíram seus mundos a partir das margens.
artnow-report-arte-de-todas-as-formas-art-artistic-obra-de-arte-a-melhor-revista-de-arte
artnow-report-arte-de-todas-as-formas-art-artistic-obra-de-arte-a-melhor-revista-de-arte

O Azul

Nas obras que Gyasi traz para a edição Code Blue, o azul funciona como ele sempre funcionou em sua produção: não como cor de fundo, mas como argumento. O azul profundo que envolve dois homens de costas funde silhueta e parede até que a separação entre corpo e espaço deixa de existir — é o azul como apagamento que paradoxalmente afirma. A menina de branco que traça um eletrocardiograma sobre o azul da parede transforma o vazio em batimento, o silêncio em pulso vital. Os dois corpos amarrados por cordas cor de palha contra o céu saturado: o azul como o absoluto que não reduz o humano, mas o enquadra.
Gyasi acredita que cores têm impacto mensurável sobre o estado emocional de quem as recebe. O azul é onde ele deposita a serenidade — não a serenidade fácil, mas a conquistada. A que vem depois de algo. É essa camada que as imagens carregam, e que o espectador recebe antes mesmo de saber por quê.
artnow-report-arte-de-todas-as-formas-art-artistic-obra-de-arte-a-melhor-revista-de-arte
artnow-report-arte-de-todas-as-formas-art-artistic-obra-de-arte-a-melhor-revista-de-arte
error: Content is protected !!