Presente
Uma palavra fazendo quatro trabalhos
Ela nomeia o tempo em que estamos — o presente, o único em que é possível fazer qualquer coisa. Nomeia o estado de um corpo diante de outro: estar presente. Nomeia o objeto que se dá a alguém. E nomeia o ato de tornar visível o que estava fora de alcance: apresentar.
Em espanhol, presente. Em inglês, present. Em francês, présent — ali com sentido mais literário, já que a palavra corrente para dádiva é cadeau. Quatro sentidos, quatro línguas, a mesma raiz.
Em árabe, não. Ali o agora e a presença nascem de uma raiz, e a dádiva nasce de outra. As duas palavras não se tocam. Descobrimos isso ao preparar a quinta edição desta revista em língua árabe, e a descoberta melhorou o trabalho — porque provou que a coincidência não é uma lei do mundo. É um acidente de uma família de línguas, e acidentes assim costumam esconder alguma coisa.
Este esconde.
Em latim, praesens é o particípio presente de praeesse — estar diante, estar à mão. Prae mais esse: ser à frente de alguém. E o objeto que se dá herdou o nome desse gesto: o sentido de dádiva vem do francês antigo, de expressões como mettre en present — colocar diante, dar.
Um presente não se chama presente porque é bonito, porque é caro ou porque agrada. Chama-se presente porque foi posto diante de alguém.
A dádiva foi batizada pela presença. Não o contrário.
O que existe sem estar presente
Nenhum objeto do mundo depende tanto disso quanto uma obra de arte — e nenhum admite tão pouco essa dependência.
Existem obras compradas por pessoas que nunca as viram. Ficam em galpões alfandegados na Suíça, em Luxemburgo, em Cingapura, onde são armazenadas, seguradas e negociadas em regime aduaneiro suspenso — sem entrar formalmente no país onde estão guardadas. Podem trocar de dono sem sair da prateleira. São, do ponto de vista financeiro, um ativo quase perfeito: valor preservado, presença nenhuma.
Existem obras em reserva técnica há décadas. Catalogadas, tombadas, climatizadas, invisíveis. Na maioria dos museus, a parte exposta do acervo é uma fração pequena do total — e a decisão sobre o que sobe para a parede e o que permanece embaixo é administrativa, não estética.
Existem obras vistas por milhões de pessoas em telas de seis polegadas, por alguns segundos cada.
Todas essas obras existem. Nenhuma delas está presente.
E existe o oposto. Um quadro pendurado numa sala de estar há vinte anos, diante do qual alguém passa todos os dias sem olhar — até a manhã em que olha. Aquele quadro esteve presente o tempo todo. Faltava o corpo.
É aí que a etimologia deixa de ser curiosidade e vira critério. Se presente é o que está diante, então a presença de uma obra não é uma propriedade dela. É uma relação, e uma relação precisa de dois. Uma obra sozinha numa sala fechada não está presente do mesmo jeito que um telefone tocando numa casa vazia não é uma conversa.
O mercado, em boa parte, opera no sentido contrário. É observação corrente entre marchands e leiloeiros que a morte de um artista costuma reposicionar sua obra: o que era oferta contínua vira estoque fechado, e a escassez faz o resto. A regra tem exceções ruidosas — há artistas vivos entre os mais caros do planeta —, mas a lógica de fundo persiste, e diz alguma coisa sobre um sistema que precisa da ausência para calcular valor.
O que se paga de volta
Numa sala lateral do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo, pessoas penduram objetos numa parede desde o século XVIII. Perna de madeira, cabeça de cera, fotografia, muleta, tabuinha pintada com a data de um acidente. São ex-votos: coisas deixadas em pagamento por algo que foi recebido sem ter sido merecido.
Nenhum daqueles objetos foi feito para ser arte. Nenhum é assinado. E todos foram deixados num lugar onde desconhecidos vão olhá-los depois. É aí que está a coisa: um ex-voto diz eu estive aqui, e diz isso menos ao santo do que a quem vier ver.
É a definição mais antiga e mais exata de presença que este país produziu, e ela está numa parede sem curador.
No dia 31 de dezembro, em qualquer praia do Brasil, o gesto se inverte. Milhares de pessoas fabricam alguma coisa com cuidado — flores, um barquinho, um espelho, um pente — e entregam ao mar, que não confirma o recebimento. Um presente feito para ser perdido, oferecido a um destinatário que nunca responde.
Entre a parede que recebe e a água que leva está toda a distância que esta edição percorre.
O presente que não termina
Quase todo presente do mundo se dá uma vez só.
O relógio é entregue, o vinho é aberto, o brinquedo cansa. A entrega tem hora, e depois dela o objeto começa a se afastar de quem o deu — vira uso, vira rotina, vira gaveta.
Com uma obra, acontece o contrário. Ela é entregue no dia em que é pendurada e volta a ser entregue em cada manhã em que alguém para na frente dela. Muda com a luz de novembro e com a luz de junho, com a idade de quem olha, com o que aconteceu naquela semana na casa. É o único presente que continua sendo dado depois de dado — e que costuma valer mais na décima vez do que na primeira.
Foi por isso que gente que nunca se chamou artista pendurou uma tabuinha numa parede de Minas, para desconhecidos verem daqui a duzentos anos. E é por isso que alguém entrega flores a uma água que não responde: quem faz esse gesto sabe que a coisa dada não termina no momento da entrega.
Um artista trabalha meses sem saber quem vai receber, e mesmo assim toma cada decisão pensando nessa pessoa. Escolhe o azul para alguém cujo rosto não conhece. É o que este ofício tem de mais generoso — e o encontro acontece toda vez que alguém para.
Uma obra só se dá quando alguém está presente diante dela.
