A Geografia da Alma em Três Acordes

Postigo

Na música, como na vida, há as portas principais e há os postigos. Enquanto muitos buscam a entrada monumental, a banda pernambucana Postigo nos ensina a arte de olhar pela fresta — aquela pequena abertura em uma porta maior, de onde se revela a perspectiva mais íntima, a verdade não declarada. Sua música não é um panorama, é um close-up. Um convite para espiar a vastidão que existe dentro de um único instante.
Formado pelo vocalista e guitarrista Théo Júnior, o baixista Bruno Felipe e o baterista Augusto Lino, Postigo opera com a honestidade brutal de um power trio. Não há artifícios, não há onde se esconder. A bateria e o baixo não marcam apenas o tempo; eles pavimentam a estrada, uma topografia rítmica que pulsa com o groove do funk-rock e pesa com a densidade do grunge. Sobre essa fundação, a guitarra e a voz de Théo Júnior não cantam, mas desenham a paisagem — ora sinuosa e melódica, ora febril e distorcida, como o próprio relevo das emoções humanas.
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Seu EP de estreia, Norte, é a prova dessa viagem pela alma. Concebido como um percurso pelas complexidades das relações, o álbum nos coloca no banco do carona de uma jornada interior. Em “Rumo ao Horizonte”, o rock se torna tátil, a fusão de corpos se tornando a própria paisagem em movimento. Logo adiante, em “Sob Efeito”, a harmonia se turva, a melodia cambaleia, traduzindo com precisão a busca desesperada por anestesia no álcool, um atalho para fora do mapa da dor.
Mas é em “Desacontecer” que a banda revela sua força mais visceral. A canção nos mergulha na geografia do vazio, no silêncio pesado da depressão, para então explodir em um refrão que é pura catarse e resgate. É o som da mão que agarra, que puxa para fora da escuridão, a afirmação sonora de que mesmo no abismo, a resistência é possível.
As composições de Théo Júnior, nascidas do cotidiano, funcionam como sismógrafos da condição humana, capturando os tremores sutis dos afetos, das perdas e dos reencontros. Postigo transforma essa matéria-prima em um rock que pensa, que sente e que questiona. Sua música não grita respostas; ela nos ensina a ouvir as perguntas que moram dentro de nós.
Em um cenário musical tão rico quanto o de Pernambuco, Postigo representa um movimento de resistência íntima. Eles nos lembram que a jornada mais importante não é a que nos leva a algum lugar, mas a que nos leva para dentro. E essa jornada agora aponta para um novo horizonte com o lançamento de seu segundo EP, Oeste. Se Norte foi o ponto de partida, o novo trabalho surge como o próximo destino, consolidando a maturidade sonora do trio e aprofundando sua exploração das paisagens da alma. A cada acorde, a cada verso, eles nos oferecem a chave de um novo postigo, nos desafiando a olhar e, finalmente, a nos enxergar.
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