Presente Contínuo
Pedro Prandini
A margem nunca fica pronta. Entre a terra e a água, a maré a refaz, a hora a reescreve — e o que era borda pela manhã já é outra borda à tarde. Pintar a margem, como Pedro Prandini fez em Margens, sua segunda série, é escolher como assunto algo que só está presente enquanto se olha.
O método pede do artista a mesma presença. Pedro trabalha com acrílica fluida e cola como medium: dilui a tinta até o ponto em que ela cede, inclina a tela, deixa a gravidade correr e a diferença de densidade abrir as células. E permanece. A decisão final não vem de um plano guardado no passado nem de uma imagem projetada no futuro — vem do que está acontecendo ali, enquanto acontece. Ao pintor cabe preparar a matéria e estar inteiro no instante, para saber a hora de intervir e a hora de tirar a mão. A obra exige dele a presença que a margem exige do tempo.
Costa
Estuário
Arquipélago
Margens percorre oito formas dessa borda: restinga, mangue, igapó, ilha, arquipélago, costa, falésia, estuário. Cada tela guarda um agora suspenso em que a água ainda não é só água nem a terra é só terra — e o limite, por definição, é o presente puro: o ponto exato em que algo está sendo, antes de já ter sido. Nenhuma delas é um estado fixo.
A série fecha no estuário, onde o rio que desce encontra o mar que sobe — o presente permanente de duas águas que não param de chegar. Nessa última obra, Pedro depositou uma faixa de cinza quase reta; durante a cura, ela se curvou sozinha numa onda que ninguém desenhou. A matéria escreveu a última linha depois que o artista parou — a prova de que estar presente inclui saber recuar e deixar o agora terminar o trabalho.
Ilha
Restinga
Igapó
Mangue
O que se recebe diante de uma dessas telas é da mesma natureza. A água parece ainda correr e a borda ainda se redesenhar, não por ilusão de ótica, mas porque foi assim que a superfície se formou: por forças que continuam sendo as mesmas do lado de fora da moldura. O quadro não congelou o instante — manteve um presente em curso. E quem para diante dele não olha uma lembrança: entra num agora que continua sendo agora.
É esse o presente que o artista entrega. Não o que se embrulha, nem o que se guarda numa gaveta — o que se atravessa. A margem não é um lugar que se cruza uma vez e se deixa para trás; é um lugar que só se conhece estando nele, inteiro, atento. E cada tela, quando alguém para diante dela, volta a acontecer.
Enquanto Margens circula, Pedro já está noutro lugar. As Águas do Brasil, sua terceira série, lê o país inteiro pelas suas águas — seis obras, do Cerrado ao mar.
A próxima água da pesquisa dele não corre do lado de fora.
Falésia
Pedro Prandini
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