O Som da Tinta
Pedro Prandini
Há um momento, infinitesimal e absoluto, antes que a tinta toque a superfície. É um instante de silêncio. O que vem depois, na obra de Pedro Prandini, é pura acústica visual. Para esta edição dedicada à musicalidade do olhar, mergulhamos no ateliê deste artista que não apenas pinta, mas rege. Ali, onde o líquido encontra o plano, ele descobriu uma frequência própria: ele aprendeu a pintar o som.
Sua técnica, ancorada no derramamento, opera numa zona de vertigem controlada, muito próxima da improvisação do Jazz. Se a tela fosse um palco, a tinta não seria uma bailarina disciplinada, mas uma força da natureza dançando sobre uma partitura que se escreve enquanto é executada. Pedro não impõe a forma; ele propõe o ritmo. Como um maestro que respeita a vontade dos instrumentos, compreende que a matéria tem voz. E a sua função é deixá-la cantar.



A poética de Pedro nasce de uma intimidade tátil cultivada cedo, nos teares e texturas de uma educação Waldorf, onde a mão aprende a "pensar" antes do olho. Mas foi ao liberar a tinta da rigidez do pincel que ele encontrou sua verdadeira sinfonia. A gravidade torna-se coautora. O ar, a temperatura e a inclinação interferem na composição como instrumentos de sopro moldando uma melodia.
O resultado são superfícies que respiram. Observar uma de suas obras é testemunhar o registro de um acontecimento geológico e emocional. Camadas se fundem, bolhas de ar eclodem como notas percussivas, e cores se invadem em transições que lembram acordes dissonantes que se resolvem em harmonia. Não é uma pintura estática; é o "som da tinta" ecoando no espaço, reverberando uma energia que continua vibrando muito depois de o material secar.
Neste ecossistema autônomo, nada se repete. Cada obra é um acontecimento único, um registro sismográfico de um instante em que a gravidade desenha e a matéria pensa. É a "Música que se Vê" em sua forma mais visceral: se uma pincelada é um ponto, o derramamento de Pedro é o glissando — aquela transição fluida e ininterrupta entre notas que desafia a segmentação do tempo.
Se esta página da ArtNow Report funciona como um acorde isolado, uma amostra da potência contida no gesto do artista, o verdadeiro concerto aguarda o espectador em outro território. Contemplar a obra de Pedro Prandini exige o mergulho na totalidade de seu percurso.



Sua obra exige navegação. É no ambiente virtual do artista — seu verdadeiro acervo vivo — que essa "música" ganha a dimensão de uma orquestra completa. É no seu site e portfólio que a "Acústica da Matéria" se desdobra em todas as suas variações, convidando o olhar a percorrer geografias emocionais que ainda respiram. Lá, onde é possível adentrar uma galeria sem paredes e examinar as minúcias do acaso, a "Sinfonia Líquida" se desdobra em todas as suas variações.
Se aqui oferecemos o refrão, é em seu portfólio que a ópera acontece integralmente. O convite está feito: a batuta já deu o sinal, a tinta já foi derramada. O restante da melodia espera por você, a um clique de distância, onde o som da cor nunca cessa.


