Patricia Di Basso
Orquestrando o Abstrato
Diante de uma tela de Patricia Basso, a primeira exigência não é o olhar, mas a imersão. Há, na superfície de suas obras, um convite silencioso para desacelerar o tempo cronológico e ingressar em um tempo kairós — um tempo de ressonância. Sua pintura não se entrega de imediato; ela se comporta como uma partitura complexa que exige do observador não a decifração de símbolos, mas a disponibilidade para sentir o ritmo de uma cor e o silêncio de um espaço vazio.


Nascida em Caxias do Sul, mas cidadã de uma geografia interiorana e universal, Patricia orquestra atmosferas. Sua obra que ecoou das paredes do Grimaldi Forum, em Mônaco, à seleta curadoria do projeto Portas para a Arte, da Fundação Bienal do Mercosul, revela uma artista que domina a difícil arte de equilibrar estrutura e fluidez. Se a arquitetura de seus quadros sugere uma construção mental rigorosa, a execução é puro jazz: um improviso controlado onde o gesto busca o desconhecido.
Ao conversar com a artista, percebe-se que seu processo criativo é uma investigação tátil. Patricia não confronta a tela branca com respostas prontas. Ela começa com uma "intenção ampla", um acorde fundamental, e permite que a pintura dite seus próprios caminhos. É no "fazer" — na fricção do pincel, na sobreposição de camadas, na tensão entre o planejado e o acidental — que a obra ganha corpo.
Um dos aspectos mais fascinantes de sua poética é a relação com o fim. Para uma artista abstrata, saber quando parar é talvez o desafio técnico mais refinado. Para Patricia, o ponto final não é uma decisão lógica, mas uma "espécie de silêncio interno". A obra está pronta quando cessa o ruído, quando o equilíbrio visual atinge uma frequência tal que qualquer adição seria excesso. Esse silêncio, que a artista busca no ateliê, é o mesmo que ela oferta ao público. Suas telas funcionam como espaços de suspensão para a alma, onde o barulho do mundo exterior é abafado para que algo mais sutil possa emergir.
O que surge, invariavelmente, é o próprio observador. Patricia é categórica ao afirmar que não busca guiar interpretações. Sua arte é um portal, mas a bagagem da viagem pertence a quem olha.
A pergunta que sua obra lança ao mundo é de uma simplicidade desconcertante e, ao mesmo tempo, de uma profundidade abissal: "A beleza e a harmonia que você vê na pintura encontram ressonância com a beleza e a harmonia que existem em você?"





Aqui reside a inteligência emocional de seu trabalho. A tela atua como um diapasão. Se vibramos diante de suas composições, é porque reconhecemos, naquelas formas abstratas, uma geografia interna que muitas vezes esquecemos que habitamos. A evolução de sua técnica — que hoje se apresenta mais complexa e intencional, nutrida por referências literárias e filosóficas — serviu apenas para dar mais clareza a essa "emoção eixo" que sempre guiou seu pincel.
Mesmo após assinada, a obra de Patricia Basso continua a respirar. Ela confessa não se desprender facilmente; cada quadro é um capítulo que, ao partir para o mundo, deixa um rastro, uma semente que germinará na próxima tela — como no caso de “O Filho”, obra que nasceu do eco de uma criação anterior.
Suas obras são músicas para os olhos, tocada para quem tem a coragem de escutar a si mesmo.


