O Presente de Brecheret

Trinta e três anos de pedra: a história do Monumento às Bandeiras

Do trânsito, as figuras de granito formam um bloco só. De perto, cada uma tem feição própria: uma boca aberta, um par de olhos fechados, uma cabeça baixa. Entre a primeira maquete e a inauguração passaram-se trinta e três anos.

A primeira maquete é de 1920. Victor Brecheret tinha vinte e seis anos e a apresentou na Casa Byington, às vésperas do centenário da Independência, quando a ideia de um monumento aos bandeirantes circulava entre os que discutiam o que seria uma arte brasileira.

Foi ela que aproximou dele os modernistas: dois anos depois ele levaria doze esculturas à Semana de Arte Moderna — número que mede a posição que ocupava no grupo. Em 1921 o estado encomendou a obra. Entre a encomenda e a pedra houve três décadas.

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O menino de vinte e seis anos

O projeto que hoje se vê não é o de 1920. Brecheret refez a maquete nos anos 1930, depois de uma temporada na Europa, e foi essa versão que o interventor federal Armando de Salles Oliveira decidiu implantar. A execução começou em 1936, num galpão erguido no Ibirapuera.

E parou. A Segunda Guerra interrompeu o fornecimento e o financiamento; a falta de recursos interrompeu de novo. Em 1944 o projeto passou do estado para a prefeitura, e a pedra fundamental só seria lançada dois anos depois — no mesmo galpão, o escultor tocava outras encomendas para sustentar a obra maior.

O granito veio de Mauá: duzentos e quarenta blocos de cerca de cinquenta toneladas, assentados no eixo sudeste noroeste, o sentido em que as expedições partiam da vila rumo ao interior.

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A pressa do fim

O monumento deveria ser entregue em 1954, com o Parque Ibirapuera, nas comemorações do IV Centenário. Não foi o que aconteceu: Brecheret estava doente e pediu ao governador Lucas Nogueira Garcez que apressasse a entrega. A inauguração foi antecipada para 25 de janeiro de 1953, aniversário da cidade — trinta e três anos depois da maquete apresentada por um rapaz de vinte e seis anos. Ele viveu mais dois, e morreu em 1955, aos sessenta e um, tendo visto de pé a obra com que mais se identificou.

O que ele antecipou não foi a glória. Foi a entrega — e o que a cidade recebeu não tem teto, não tem vitrine, não tem bilheteria e não pertence a ninguém em particular.

O que a pedra mostra

A obra representa uma expedição em marcha: à frente, dois cavaleiros; atrás, uma fila de homens puxando uma canoa de monções. As figuras não são de um só tipo, e isso é parte do que Brecheret construiu — entre elas se reconhecem portugueses, identificados pelas barbas, além de negros, mamelucos e indígenas, alguns com cruzes ao pescoço. Uma mesma corda atravessa os ombros de toda a fila e liga gente que não se olha.

Na face frontal, um mapa de Afonso Taunay traça o roteiro das expedições; nas laterais, versos de Guilherme de Almeida e Cassiano Ricardo, poetas que à época escreviam o que São Paulo queria ouvir sobre si mesma. A cidade batizou a obra de outro jeito — Empurra-empurra, Deixe que eu empurro. Os apelidos dizem, com humor, o que a inscrição oficial não dizia: que aquilo ali é gente fazendo força.

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Setenta anos de leituras

Nenhum monumento significa a mesma coisa por setenta anos, e este significou coisas opostas. Foi símbolo da pujança paulista; foi apropriado, décadas depois, pelo discurso de um Brasil militarizado; e passou a ser lido como monumento à violência das bandeiras contra os povos originários — leitura apoiada no que as expedições de fato fizeram: a captura e a escravização de populações indígenas.

A obra carrega as três leituras ao mesmo tempo, e não é possível tratá-la fingindo que carrega apenas uma. Brecheret esculpiu corpos em esforço, todos puxando a mesma corda; o que a história das bandeiras contém é outra coisa. A discussão sobre monumentos públicos tem esse ponto como centro: a distância entre o que uma obra mostra e o que ela celebra. Esta reportagem não pretende resolvê-la — registra que ela existe, e que faz parte da vida do monumento tanto quanto o granito.

O que resta olhar

Descontadas as camadas políticas, permanece um fato material: trinta e sete figuras de granito, a céu aberto, há mais de setenta anos. Os blocos são visíveis, e as linhas de junta atravessam os corpos, cortam um pescoço, passam por uma coxa — de longe o conjunto parece uma peça só, de perto é costura, e a costura é parte do que o escultor aceitou mostrar.

O granito é apicoado, picado a ponteiro, e a luz rasante do fim de tarde revela uma textura que ao meio-dia não existe. Quem passa de carro nunca a viu. Quem para, vê.

Uma obra pública é a única espécie de doação que continua sendo entregue todos os dias, a qualquer um que pare diante dela.

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