O Pássaro de Fogo e seus Espelhos
Ney Matogrosso
Existe um momento na história da cultura brasileira em que o som ganhou corpo, rosto pintado e plumas. Antes de Ney Matogrosso, ouvíamos a música. Depois dele, passamos a vê-la. Para esta edição dedicada à sinestesia da arte, celebramos não apenas o cantor, mas a entidade visual, o animal cênico, a "instalação viva" que, há cinco décadas, desafia a gravidade, o gênero e o tempo. Ney não canta; ele esculpe o ar com a voz.



Sua trajetória é a de um transgressor estético. Desde a eclosão vulcânica dos Secos & Molhados, Ney entendeu que o palco é uma tela em branco e seu corpo, o pincel. Iluminador de seus próprios shows, figurinista de sua própria pele, ele transitou entre o masculino e o feminino, o sagrado e o profano, com a elegância de um felino que ignora as jaulas da moralidade. Sua voz de contralto é uma textura aguda e brilhante, capaz de rasgar o tecido da realidade como um raio de luz.
Ney é, por definição, inapreensível. Como retratar, então, aquele que nunca é o mesmo?
Para responder a esse enigma, a ArtNow Report convidou seis artistas plásticos — Amanda Medeiros, Moreno, Sil Martini, Wós Rodrigues, Aroldo Junior e Lucas Ferreira — para uma missão ousada: paralisar o movimento perpétuo de Ney Matogrosso e traduzi-lo em tinta e forma. O resultado é um poliedro visual onde cada artista capturou um reflexo desse camaleão solar.
Diante do desafio, Aroldo Junior trouxe à tona a dramaticidade. Seu Ney é contraste puro, luz e sombra, capturando a intensidade daquele olhar que, mesmo sob maquiagem pesada, sempre nos fitou com uma humanidade desarmante. É o Ney visceral, roqueiro em sua essência, desenhado com a força de quem entende que o preto e branco, às vezes, grita mais alto que a cor.


Em contrapartida, Lucas Ferreira buscou a pele por trás do mito. Com seu realismo que beira o palpável, ele nos entrega a textura do ídolo, as linhas de expressão de uma vida vivida em performance máxima. Seu Ney respira; é carne, osso e memória, um convite para tocar a humanidade de um ser que muitas vezes nos pareceu etéreo.
Sil Martini e Wós Rodrigues trazem o olhar contemporâneo, reinterpretando o ícone sob a ótica de uma modernidade arrojada, fundindo o legado histórico de Ney com a urgência do agora.
Moreno, por sua vez, parece ter mergulhado na fluidez e no gestual. Sua obra dialoga com a dança de Ney, com aquele movimento de quadril e braços que desenha arabescos no palco. Ele traduz a liberdade, o "vagabundo" e o "bandido" da canção, capturando a energia cinética que faz de Ney uma força da natureza impossível de conter em uma moldura estática.






E Amanda Medeiros completa esse sexteto de olhares trazendo a sutileza e a alma. Em sua interpretação, talvez resida o mistério, o lado introspectivo do artista que, quando as luzes se apagam, recolhe-se em seu silêncio mato-grossense. Amanda captura o brilho sutil, a aura dourada de quem já nasceu coroado pela própria arte.
Estas obras não são apenas homenagens; são fragmentos de um espelho quebrado e reconstruído pela arte. Elas nos provam que Ney Matogrosso é vasto demais para uma única assinatura. Ele é a cor de Amanda, o movimento de Moreno, Wós e Sil, a sombra de Aroldo e a pele de Lucas.
Ney nos ensinou que a liberdade é uma disciplina estética. Ao contemplar as obras destes seis artistas, entendemos finalmente a lição do "Beijo": Ney é a prova viva de que a arte não envelhece, ela apenas muda de plumagem. Através dessa polifonia visual, percebemos que o intérprete é um horizonte infinito: uma obra que, quanto mais se olha, mais se ouve. E nós, espectadores privilegiados, continuamos hipnotizados, vendo a música acontecer diante de nossos olhos.






