Neia Faria
O Rigor da Lente
A trajetória de Neia Faria desenha-se na interseção de disciplinas, onde o rigor da arquitetura encontra a fluidez da sensibilidade. O resultado é uma fotografia que não apenas registra, mas honra a paisagem. Graduada pela Faculdade de Belas Artes e com quase duas décadas dedicadas à construção de espaços, Neia carrega em suas lentes uma herança inegável: a compreensão de que a luz esculpe o espaço.


Se antes seu instrumento era o traço e o concreto, hoje sua matéria-prima é a efemeridade do instante e a vastidão dos biomas. A transição da prancheta para o visor da câmera não foi uma ruptura, mas uma expansão de linguagem. Ali, onde o olho destreinado vê apenas paisagem, a artista enxerga composição, linha e ritmo. Ela fotografa como quem projeta, buscando na desordem aparente da natureza uma geometria oculta e sagrada.
É na imersão no Pantanal, contudo, que sua poética atinge a densidade máxima. A expedição a esse bioma operou nela um despertar que transcende a estética, tocando o terreno do espiritual e do urgente. Suas imagens desse santuário ecológico não são documentais no sentido frio da palavra; são testemunhos de intimidade. Ao focar nos detalhes — o brilho úmido no olhar de um jaguar, a trama de sombras na vegetação, o reflexo espelhado que duplica o mundo —, a artista nos convoca a uma percepção tátil.
Nessas obras, o silêncio das águas possui peso e textura. Neia compreendeu que a beleza é a ferramenta política mais poderosa da natureza: seduzir o olhar para despertar a consciência. Sua lente atua como guardiã, capturando a grandeza viva para lembrar que proteger o Pantanal não é apenas preservar um mapa geográfico, mas honrar a própria pulsação da vida.
Entre a precisão da arquiteta e a intuição da fotógrafa, surge um trabalho de impacto sereno, que pede silêncio para ser ouvido e clama por ação para que o objeto de sua arte permaneça eterno. Onde antes havia apenas o desejo de registrar, agora existe o compromisso de ecoar: o Pantanal respira nas imagens de Neia Faria e, através delas, exige que continuemos a respirar com ele.





