O Corpo de Nebra
Mylene Costa
Uma escultura de Mylene Costa não se apresenta — instala-se. Não há gesto de convite, não há superfície que peça para ser tocada ou contemplada com distância segura. Há presença: densa, silenciosa, organizada ao redor de um vazio que é tão constitutivo da obra quanto a matéria que lhe dá corpo. É essa a distinção que define sua poética desde o início — a recusa de tratar o espaço como fundo e a insistência em tratá-lo como interlocutor. O vazio não é o que sobra depois da forma: é o que a forma precisou ceder para existir.



Nascida em Cuiabá, no coração de um Brasil de vastidões, Mylene construiu uma trajetória entre duas geografias que nunca deixaram de informar seu trabalho: a memória primordial da terra e o rigor da metrópole, amplificado por anos de trânsito com os Estados Unidos. Essa dupla matriz — o orgânico e o industrial, o ancestral e o contemporâneo — ressoa na tensão constitutiva de cada peça. Com obras apresentadas em centros culturais da Europa, América Latina e Brasil, sua linguagem já atravessou fronteiras sem precisar de tradução.
O azul desta edição encontra em Mylene Costa sua expressão mais tridimensional — e, paradoxalmente, mais imaterial. A artista define o azul com precisão que nenhuma teoria da cor alcança sozinha: profundidade, suspensão e mistério. A cor que silencia o excesso e abre espaço para a contemplação. Nas esculturas da série Nebra, o azul não é pigmento aplicado sobre uma superfície neutra: é a frequência emocional da própria matéria. A resina automotiva pigmentada carrega esse tom com uma profundidade que varia conforme o ângulo de incidência da luz — ora turquesa, ora quase acinzentada, ora de um azul que parece absorver o espaço ao invés de refleti-lo. O objeto não tem cor. Ele é azul — do mesmo modo que o oceano não tem cor de água.
A escolha da resina automotiva pigmentada não é indiferente — é argumentativa. Um material industrial, desenvolvido para resistir ao tempo e ao impacto, é aqui submetido a uma lógica inversa: Mylene o tensiona, o dobra, o interroga até que ele revele sua vulnerabilidade. O resultado são superfícies que parecem guardar a memória de um toque — como pele que já foi pressionada por algo que não está mais ali. E o azul, sobre essa superfície acidentada, não é uniforme: aprofunda-se nas concavidades e clareia nas saliências, criando uma cartografia cromática que mapeia a arquitetura interna de cada peça.
A série Nebra deriva de Nebra 1999 como de uma matriz que não se replica — que se desmembra. Essa distinção é fundamental. Replicar seria produzir cópias de uma forma já conquistada; desmembrar é um ato de risco e inteligência: implica que a unidade original contenha, em estado latente, todas as formas que dela derivarão. A peça-matriz — onde massa, concavidade e curvatura ainda coexistem como unidade condensada — carrega em si a tensão de tudo o que ainda não se separou. É uma forma que guarda dentro de si outras formas ainda não nomeadas, à beira da dissociação.






O que se desdobra em Nebra I, II, III e IV é um processo de isolamento progressivo. Nebra I tensa a matéria até o limite da instabilidade — a forma que se alonga como se estivesse à beira do colapso, sustentando-se por uma força que não é visível mas se sente. Nebra II condensa e escava: a concavidade surge como campo interno ativo, resultado de compressão e deslocamento. Nebra III inverte a lógica habitual da escultura — a forma passa a se estruturar a partir do vazio, não o contrário. A concavidade deixa de ser consequência da massa e passa a ser sua razão de existir. E Nebra IV reintegra: os elementos antes dissociados — massa, vazio, curvatura — passam a operar de forma contínua, afirmando uma nova unidade que não é o retorno ao ponto de origem, mas a chegada a um equilíbrio que a matriz, sozinha, não poderia atingir.
Mylene Costa não busca a forma perfeita — busca o que permanece depois dela. E o que permanece, nesta série, é exatamente o que o azul guarda em sua natureza mais profunda: a capacidade de não se impor, mas de permanecer. Presença, respiro e infinito — as próprias palavras da artista — descrevem não apenas uma cor, mas um modo de existir no espaço. Contemplar a série Nebra é compreender que a escultura não se multiplica: ela se divide para, ao final, encontrar uma unidade que só o desmembramento poderia revelar. E que o azul, nesse percurso, não é o começo nem o fim — é o silêncio que torna audível tudo o que a forma ainda não disse.



