Cartola e a Nobreza do Preto e Branco

Moreno

Há um paradoxo fascinante na obra de Moreno. Vivendo em Pipa, cercado pela saturação cromática e solar do Nordeste brasileiro, o artista escolhe o silêncio visual do preto e branco para traduzir o som. Para esta edição de Música que se Vê, Moreno não nos entrega o carnaval das cores, mas a intimidade da sombra. Ao retratar ícones como Adoniran, Cartola, Elis e Keith Richards, ele opera uma redução fenomenológica: retira o ruído do mundo para que possamos, finalmente, "ouvir" a imagem.
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Sua pintura é uma espécie de câmara anecóica onde o tempo suspende seu curso. Moreno, que também é músico, compreende que o retrato não é a captura de uma face, mas a gravação de uma frequência. O óleo sobre a tela não busca apenas a topografia da pele — as rugas de Richards ou o sorriso contido de Pixinguinha —; ele busca a ressonância. O preto não é ausência de luz, é profundidade de grave; o branco não é vazio, é o agudo que rasga o espaço.
Nos retratos de Tom Jobim, ele captura a aura melódica e tranquila do maestro da bossa nova, sugerindo a pausa e o silêncio que são tão vitais quanto as notas. Em contraste, as pinturas de Keith Richards refletem a energia crua e rebelde do lendário guitarrista dos Rolling Stones, onde o traço e a sombra parecem vibrar com o riff de uma guitarra. Já as obras de Chet Baker mergulham na introspecção e na melancolia do jazz, transformando a luz e a sombra em um lamento visual.
A escolha pela monocromia é, aqui, um ato de reverência. Cores poderiam distrair; o preto e branco, contudo, é a linguagem da memória e da eternidade. É como se Moreno revelasse o negativo da alma desses artistas. Em Cartola e Nelson Cavaquinho, o artista esculpe a dignidade do samba e a poesia das ruas com uma iluminação quase cinematográfica, onde cada sombra conta uma história de boemia e resistência. Já em Chet Baker e Miles Davis, a fumaça do jazz parece ter sido usada como pigmento, criando uma atmosfera de introspecção que convida o espectador a fechar os olhos e imaginar o sopro do trompete.
Diante de suas telas, a visão transmuta-se em audição. Ele nos recorda que a música, antes de ser som, é uma vibração interna, uma presença física que desloca o ar. Em seus retratos, essa presença é tão tátil que a imagem parece vibrar em uma frequência audível. Moreno não pinta músicos; ele pinta a música que os habita e os consome, transformando óleo e tela em uma partitura visual que ecoa perpetuamente na retina.
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