Mário Schuster

A Oferenda — o horizonte não responde

Uma pintura de gestos que não pedem testemunha: flores levadas ao mar, uma cadeira posta para quem não veio, um corpo adormecido na calçada. Em Pelotas, no extremo sul do Brasil, um pintor que antes foi veterinário insiste em olhar antes de explicar.

Você já viu alguém fazer uma oferenda?

Não a que se prepara para ser vista. A outra — a que se cumpre sem plateia, quando alguém chega à beira do mar com flores nas mãos e permanece diante de um horizonte que não responde.

É esse intervalo, entre oferecer e deixar partir, que Mário Schuster retém.

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Nascido em Pelotas, chegou à pintura por um percurso incomum. Formou-se em Medicina Veterinária e, décadas depois, em Pintura, pela mesma universidade. A distância entre as duas formações é menor do que parece: uma ensinou a ler sinais antes da palavra, a outra deu matéria a esse olhar. É um método, não uma biografia curiosa — observar primeiro, interpretar depois, aceitar que nem tudo o que importa se anuncia.

Quem faz a oferenda está de costas. Não há rosto a decifrar, nenhuma expressão que oriente a leitura. As figuras são construídas com espátula, em massas brancas que ocupam uma fração mínima da tela — o restante é céu e mar em azul e violeta, aplicados em toques curtos que nunca se assentam em superfície lisa. A tinta permanece visível como gesto. Também ela foi deixada ali, sem retoque.

Flores brancas à beira d’água convocam, no Brasil, um repertório imediato. Mário não o nega nem o encena. Pinta o que sobra quando o rito termina: a pessoa ainda de pé, a água que já levou. É uma decisão arriscada — recusar o rito é recusar também sua energia visual, e o que fica em cena é pouco: uma mancha branca, areia, um céu grande demais. A pintura aposta que esse pouco basta.

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O que importa não é descobrir para quem algo é oferecido, quem ocupou determinado lugar ou para onde alguém se dirige. Importa o momento em que uma ação pequena adquire peso.

O destinatário pode permanecer invisível. O gesto, não.

A cadeira vazia com toalha de renda diz a mesma coisa por outro caminho. Aqui o azul desaparece: cinzas, ocres, uma luz suja de fim de tarde. Alguém esteve neste lugar, ou deveria ter estado. O objeto guardado com cuidado, o assento preparado, a espera que virou permanência — isso também é oferenda. Não ao mar. Ao tempo. À memória de quem não voltou, ou ainda não chegou.

Mário se aproxima dessas situações sem convertê-las em espetáculo. Interessa-lhe o que acontece antes de qualquer explicação: oferecer, esperar, guardar, partir.

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Dar pressupõe passagem — alguma coisa deixa de pertencer a quem a segurava. Pode haver fé, memória, desejo, despedida ou apenas a necessidade de entregar. A pintura não resolve a origem do gesto. Reconhece sua força e para.

Não há resposta no horizonte. É essa a condição: entregar sem confirmação de recebimento. O que estas obras guardam não é o objeto oferecido, mas o intervalo entre a mão aberta e a água.

Alguém dorme onde não deveria haver cama. O desenho não pede pena nem denuncia: apenas registra que o corpo estava ali, e que a calçada aceitou.
Uma pena ocupa a folha inteira. Caiu de alguma coisa que já foi embora — e o traço a recolhe com o mesmo cuidado que a praia dá às flores.

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