A Arte como Sinal Vital
Mário Schuster
Há uma pergunta que Mário Schuster nunca formulou em palavras, mas que habita cada tela que pinta: o que persiste quando um corpo — de animal, de homem, de memória — quase desaparece? Não é uma questão abstrata, mas a vivência de quem exerceu por anos a medicina veterinária com a clareza de que os animais não falam, que todo diagnóstico exige uma escuta do invisível, e que entre a vida e o seu fim existe uma linha tão tênue quanto o limite de um traço a lápis.



Nascido em Pelotas, no extremo sul do Brasil, Mário carregou desde a infância uma dupla inclinação que o mundo insiste em tratar como oposta: a ciência e a arte. Aos cinco anos, já preenchia cadernos com seus traços. Aos doze, foi aceito no ateliê do pintor uruguaio Nestor Rodrigues, professor da Faculdade de Belas Artes da Universidade Federal de Pelotas. Aos dezoito, ingressou no curso de Medicina Veterinária — e, sem dinheiro para comprar livros de anatomia, foi à biblioteca e copiou cada estrutura óssea, órgão e sistema em desenhos meticulosos. Estudou o corpo através da mão; aprendeu a ciência pelo gesto.
Essa origem dupla não é mero detalhe biográfico: é a própria estrutura da sua obra. “Se o desenho me ajudou a aprender veterinária, por outro lado a profissão aprimorou meu senso de observação, já que os animais não falam e a semiótica é fundamental”, reflete o artista. Quando se olha para uma tela de Mário, essa semiologia silenciosa está em tudo: no porte contido de um pássaro, na densidade de uma pena encontrada no chão, no olhar de um animal que não pede nada, mas diz tudo.
Seria simples demais dizer que Mário é um veterinário que pinta, ou um pintor que exerceu a medicina. Ele próprio recusa essa separação com uma perspectiva mais honesta: “Por muito tempo andaram juntos. Na realidade, o artista cedeu um tempo em sua vida para o veterinário. Hoje, este é um personagem que sustenta aquele.” Há generosidade nessa simbiose. Nenhuma das duas trajetórias foi desperdiçada, mas amalgamadas a ponto de a cicatriz entre elas tornar-se invisível.
Há trabalhos seus que dificilmente alguém colocaria na parede da sala — e ele diz isso sem ironia, com a tranquilidade de quem sabe que a arte não foi feita apenas para enfeitar. “No mundo em que vivemos hoje, com a violência, a injustiça e a ganância, é impossível o artista ficar alienado a esses fatos.” Nesse sentido, sua pintura é documento e posicionamento; é a recusa do pintor em fingir que o entorno não existe quando ele fecha a porta do ateliê. Em um tempo saturado de imagens descartáveis, Mário aposta na contramão: na imagem que demanda, que perturba e que não se resolve fácil. “Penso que a arte é resistência a esse mundo tão insano, [...] um oásis no meio desse turbilhão.” Esse oásis, porém, não é refúgio cego: é um lugar interno ao mundo onde ainda é possível refletir.


Curar um corpo e pintar uma memória têm em comum algo que só se percebe com o tempo: ambos são gestos contra o desaparecimento. A medicina luta contra a finitude física; a arte, contra a finitude do sentido. Mário exerceu as duas frentes com a mesma mão — a que desenhou órgãos em uma biblioteca para avançar na faculdade, e a que, décadas depois, transforma uma pena encontrada no chão em uma pergunta sobre o mundo.
Mário Schuster não pinta para dar respostas, mas porque a pergunta é necessária. E porque, como ele mesmo diz, “a arte é quase como uma necessidade fisiológica no dia a dia.” O sinal vital que pulsa em cada uma de suas telas não é apenas o batimento de um coração: é a pulsação de uma consciência que se recusa a olhar para o mundo com indiferença.


