Maria Lúcia Montemór

A Partitura da Memória

Enquanto o mundo se consome em velocidade, a pintura de Maria Montemor instaura a radicalidade da presença. Sua obra recusa a entrega imediata; ela convoca o espectador não apenas a ver, mas a auscultar a tela, transcendendo a superfície do pigmento para tocar a frequência vibratória da matéria. Contemplar seus "derramados" é testemunhar uma música que se materializou em silêncio — onde cada cor detém a ressonância de uma nota e cada gesto responde a uma partitura invisível, regida menos pela técnica acadêmica e mais pela urgência de uma "partitura sentimental".
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Essa sensibilidade acústica não é um artifício recente; é a própria gênese da artista. "A música permeia a vida de todo mundo, o Universo é música, até nossa respiração tem compasso", defende Montemor. Sua educação estética foi moldada na efervescência dos festivais da canção de 1965 a 1969, em uma casa onde o pai despertava cantando e os saraus eram rituais cotidianos. Entre o violão dos irmãos e a regência de um tio maestro, Montemor aprendeu que não somos impermeáveis ao som. De Lupicínio a Pink Floyd, do choro ao rock progressivo, seu repertório afetivo criou um lastro onde a pintura se tornaria a consequência natural da escuta.
Hoje, essa bagagem explode em sua técnica do "derramado", que opera com a lógica do jazz: uma liberdade controlada, um fluxo que organiza o caos. Em sua nova série de 2025, essa relação simbiótica atinge o ápice. A artista não apenas pinta com música; ela pinta a música, traduzindo frequências sonoras em topografias de cor.
Em Romaria (2025), por exemplo, a tela se converte em um hino de pertencimento. Inspirada na obra-prima de Renato Teixeira imortalizada por Elis Regina, Montemor evoca a fé e a cultura caipira não como folclore, mas como comunhão. Ali, as tintas reencenam a procissão, trazendo à tona memórias familiares que se misturam à devoção coletiva dos romeiros.
Já em Red Right Hand (2025), a atmosfera muda drasticamente. Ao som de Nick Cave e sob a influência sombria de Peaky Blinders, a artista busca a força inescapável e quase sobrenatural da "mão vingativa". A obra materializa uma flor que é, ao mesmo tempo, beleza e poder invasivo, um símbolo que transborda emoção e perigo.
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A versatilidade emocional de Montemor fica evidente quando o olhar transita para Feeling Good (2025). Bebendo na fonte de Nina Simone e do hino pelos direitos civis, a tela é um manifesto de emancipação e renascimento. O "novo amanhecer" cantado por Simone ganha forma visual em um transbordar de otimismo e dignidade, uma resistência cromática contra as adversidades. O mesmo vigor pulsa em Jazz (2025), onde o azul do entardecer e o dourado de um saxofone guiam o derramamento das tintas, celebrando a síncopa e a liberdade da cultura afrodescendente em uma fusão visual de som e imagem.
Seja na resiliência colorida de Vida de Colores (2025), que mapeia os relevos emocionais da existência, ou na fluidez instrumental de Lamentos do Mar (2025), onde a mensagem é riscada na tela como uma afirmação da sensibilidade, Maria Montemor reafirma sua tese: a arte é um veículo de cura.
"Quero pensar que sim, se não cura quem a observa, cura quem a espalha", reflete a artista. Ao final, suas obras não são apenas representações visuais de canções; são câmaras de eco onde a memória pessoal se encontra com a história coletiva. Diante de suas telas, a certeza é única: a pintura, nas mãos de Montemor, não é silêncio. É uma orquestra que nunca para de tocar.
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