Dragões do Atlântico

Marcelo Côrtes

Marcelo Côrtes Fernandes e a arte de libertar dragões

Nascido no Rio de Janeiro e profundamente marcado pela convivência com o Atlântico, Marcelo Côrtes Fernandes construiu uma trajetória artística singular ao longo de mais de três décadas. Engenheiro, estrategista e artista, ele transita entre universos que raramente se encontram, transformando estrutura em sensibilidade e pensamento em linguagem visual. Sua obra não nasce apenas do olhar, mas de uma relação íntima com as forças da natureza, com os mitos e com os movimentos invisíveis que atravessam a experiência humana.

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Ao entrar em contato com sua produção, é impossível não pensar no cinema — não no cinema dos efeitos especiais, mas naquele que transforma símbolos em narrativas universais. Dos clássicos medievais às grandes produções contemporâneas, os dragões sempre representaram mais do que criaturas fantásticas. São guardiões de passagens, manifestações de energia, figuras associadas à transformação. Na obra de Marcelo, eles surgem como protagonistas de uma mitologia própria, construída ao longo dos anos, onde forças aparentemente opostas deixam de se enfrentar para passar a coexistir.

Seu universo visual funciona como uma espécie de cinema sem roteiro. Não existem personagens definidos ou histórias lineares. Existem atmosferas, tensões e encontros. Como nos filmes que permanecem vivos muito depois dos créditos finais, suas obras parecem sugerir que há algo maior acontecendo além do que se vê — uma narrativa silenciosa que convida o espectador a atravessar territórios onde razão e intuição, matéria e espírito, convivem em permanente movimento.

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Talvez seja justamente essa a singularidade de Marcelo Côrtes Fernandes. Sua obra nasce no ponto exato onde a matéria encontra o mistério. Mais do que pintar imagens, ele constrói atmosferas capazes de despertar memórias que não sabemos de onde vêm e emoções que não precisam de explicação. Seus dragões não habitam castelos, montanhas ou lendas antigas. Habitam um território mais profundo: aquele onde a imaginação humana reconhece, intuitivamente, as forças que a acompanham desde sempre. Entre o fogo e o oceano, entre a ordem e o impulso, Marcelo cria uma linguagem própria — uma linguagem que não pede interpretação imediata, mas entrega ao espectador algo mais raro: a experiência de sentir o invisível.