A Sessão Privada

Maíra Pellicano

Acende as velas. Apaga o resto. Senta-se no chão — sempre no chão — e espera que algo comece. Não é oração, embora se pareça; não é técnica, porque técnica ela nunca aprendeu. É outra coisa, mais próxima do que acontece quando as luzes de uma sala se apagam e a projeção começa: a entrega a imagens que chegam de um lugar que não se controla. A diferença é que, no caso de Maíra, o projetor é ela mesma, e ninguém — nem ela — sabe que filme vai passar.

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Há algo profundamente cinematográfico nesse processo. Assim como certos diretores confiam mais na atmosfera do que na explicação, Maíra compreende que algumas experiências não podem ser narradas de forma direta — precisam ser sentidas. Suas pinturas habitam esse território onde emoção, memória, intuição e imaginação se encontram antes de ganhar forma.

Sua relação com a arte nasceu da urgência. Em 2020, enquanto o mundo atravessava o confinamento e a incerteza, a pintura tornou-se um espaço de respiração. Um quarto vazio transformou-se em ateliê, materiais guardados voltaram à luz e aquilo que começou como necessidade de expressão acabou revelando uma linguagem própria. O que era refúgio tornou-se caminho.

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Talvez por isso exista tanta honestidade em sua produção. Maíra não pinta para ilustrar ideias nem para responder expectativas. Pinta para escutar. Muitas vezes, nem ela própria procura explicar aquilo que surge. Há uma confiança rara em permitir que a obra seja exatamente o que precisa ser.

Em 2024, após um período de esgotamento emocional e silêncio criativo, veio o primeiro convite para expor. Quando a pintura finalmente voltou, voltou como transbordamento. Em poucos anos, quase noventa obras nasceram desse diálogo intenso entre silêncio e criação, encontrando rapidamente ressonância junto ao público e aos colecionadores.

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Talvez seja por isso que sua obra converse tão naturalmente com o cinema. Porque o cinema é, entre tantas coisas, a arte de tornar visível aquilo que ainda não possui forma. E Maíra faz exatamente isso. Cada tela parece guardar o instante em que algo invisível encontrou uma superfície onde finalmente pôde existir.

Ao final, o que permanece diante de suas pinturas é a sensação de que algumas paisagens não pertencem ao mundo exterior.

Pertencem à alma.

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