Uma a Uma
Luiza Whitaker
Vinte e seis anos abrindo, rosto por rosto, o que a cidade recebeu em 1953
Em 1999, Luiza Whitaker foi ao Ibirapuera e fotografou um rosto. Não o monumento, não o conjunto, não a vista dos cartões-postais: um rosto, de perto, preenchendo o quadro. Vinte e seis anos depois, são dezessete rostos. Faltam vinte.
Brecheret deixou a obra em 1953. Quarenta e seis anos depois, alguém começou a abri-la — um rosto por vez.
Luiza Whitaker é paulistana e fotografa há mais de cinquenta anos. O arquivo dela começa em 1971 e atravessa dezenas de países.
Antes de se dedicar integralmente à fotografia, formou-se em design e passou duas décadas como diretora de arte — origem que explica o traço mais visível do seu trabalho: um olho treinado para a proporção, que decide onde cai cada figura dentro do retângulo e como as massas se equilibram.
Tem também um método próprio, que batizou de foto mental: quando não pode fotografar, olha demoradamente e faz o que chama de um clique na cabeça. Enquadra por dentro e guarda. Diz que, em muitas ocasiões, vê a fotografia antes de fazê-la e já sabe como ela vai ficar.
No conjunto do seu trabalho se reconhecem constantes: a figura reduzida a silhueta contra um fundo claro, o interesse pelo que permanece enquanto o resto passa, a recusa deliberada em expor pessoas identificáveis. Os rostos de granito são, aí, um caso singular — as únicas figuras humanas que ela pode fotografar de perto, sem pressa e sem constrangimento, porque não podem se incomodar com isso.
A escolha que organiza este trabalho é de escala. Ao aproximar a câmera até que uma única figura ocupe o quadro inteiro, a fotógrafa retira do enquadramento tudo o que faz daquilo um monumento: a fila, a canoa, os cavaleiros, a praça, a cidade.
O que sobra é um retrato — e o retrato revela o que a escala monumental esconde: Brecheret não esculpiu tipos, esculpiu pessoas. Numa das figuras, uma cruz pende do pescoço sobre o granito apicoado. Noutra, o cabelo foi trabalhado em sulcos finos que a distância anula por completo. Numa terceira, os olhos estão fechados e a cabeça, erguida, como quem sente sol no rosto.
O método é o retorno
Nenhuma dessas imagens foi feita numa visita só. O trabalho desta fotógrafa se organiza em torno do retorno: ela volta ao mesmo lugar, muitas vezes, ao longo de anos, até que a luz coincida com o que precisa. Em outros conjuntos, esse retorno se estendeu por mais de quatro décadas.
Com um monumento de granito, o retorno tem lógica particular. As figuras não mudam — são talvez o único assunto do arquivo dela que não muda. O que muda é a luz: a rasante do fim de tarde, que revela a textura, e a de meio-dia, que a apaga. A mesma face, em horas diferentes, é outra face.
Vinte e seis anos também significam mudança de meio. As primeiras imagens foram feitas em filme preto e branco; as recentes, em captura digital. A diferença de granulação entre elas conta sozinha a história técnica do período.
Dezessete de trinta e sete
O conjunto segue aberto. Faltam vinte figuras, e a fotógrafa continua indo.
Entre as duas histórias existe uma simetria discreta: Brecheret levou trinta e três anos para talhar o que entregou à cidade, e ela leva, até agora, vinte e seis para olhar aquilo de perto. Nenhum dos dois trabalhos foi feito com pressa, e nenhum tem data para terminar.
É o que uma imagem pode fazer por uma obra que já existe: não acrescentar nada a ela, e ainda assim dar a ver o que estava ali desde o começo.
Trinta e sete pessoas de granito, a céu aberto há mais de setenta anos, esperando que alguém olhe de perto.
Instagram: @luizawhitaker
