Lucas Ferreira

A Película de Grafite

O cinema é, em sua essência, uma ilusão feita de luz projetada e pressa — vinte e quatro quadros por segundo correndo para simular a vida. No extremo oposto desse movimento efêmero, encontra-se o ateliê de Lucas Ferreira, onde o tempo não corre: ele se acumula. Utilizando a paciência milimétrica do grafite e do carvão, o artista opera uma espécie de revelação analógica reversa. Ele captura os mitos que habitam a sala escura e os fixa na matéria fibrosa do papel, devolvendo à imagem bidimensional da tela uma tridimensionalidade tátil e quase palpável.

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Para esta edição dedicada à sétima arte, a precisão microscópica de Lucas se volta para duas forças gravitacionais do cinema: o enigma histórico de J. Robert Oppenheimer e o magnetismo de Marilyn Monroe. Existe, contudo, uma decisão radical que antecede qualquer traço: o que fazer com a cor. Marilyn pertence à história visual como poucas figuras pertencem — cabelo platinado, boca marcada, um vestido que habita a memória coletiva em vermelho vivo. É uma imagem construída inteiramente sobre o contraste cromático. Lucas decidiu retirar justamente isso. Nenhum vermelho, nenhum dourado, nenhum tom exaurido pelo clichê. Só o grafite, só a escala entre o branco puro do papel e o preto mais denso que a mão consegue produzir. É uma aposta arriscada: desenhar o ícone mais colorido do imaginário do século XX usando a única linguagem que se recusa a ter cor nenhuma.

Ao destituir o mito de seus artifícios cromáticos, o jogo de luz redesenha a personagem. O brilho nos olhos, a textura sedosa da pele renderizada e o contraste com as peles que a envolvem revelam a fragilidade humana que a opulência de Hollywood tentou sufocar. Lucas resgata a matéria viva por trás da película. No contra-plano desse ensaio, o perfil cinzento de Oppenheimer surge sob a sombra do chapéu; o filete de fumaça que escapa do cigarro desenha o eco visual de uma mente fragmentada, erguida grão a grão com a densidade pesada do carvão.

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Há um ritmo silencioso que governa o traço de Lucas — uma espécie de “improvisação controlada” que funde o rigor disciplinado da técnica ao instinto cru do abismo. Cada poro e cada nuance de sombra são depositados com uma reverência que desafia a velocidade contemporânea. Diante de suas telas, o espectador é forçado a desacelerar.

Ao encenar essas grandes narrativas cinematográficas através do preto e branco absoluto, Lucas Ferreira reitera sua provocação mais profunda: por que as pessoas não se olham no espelho com a mesma admiração e espanto que dedicam aos seus desenhos? A resposta, talvez, resida na fresta que ele abre no suporte. Se o filme inevitavelmente termina e a luz da sala se acende, o grafite de Lucas retém o plano-sequência. A projeção cessa, mas o grão da sombra permanece vibrando no papel.

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