A Imagem tem Voz

Lucas Ferreira

No silêncio aparente do ateliê de Lucas Ferreira, o que impera é o som. Antes que o grafite toque o papel, há uma frequência que antecede o traço, uma melodia que dita a pressão da mão e a densidade da sombra. Para este artista, que vislumbra na folha em branco não um vazio, mas uma janela latente, o ato de desenhar é uma sintonia absoluta. Diante de sua mais recente obra — um retrato visceral de Louis Armstrong — somos confrontados com uma verdade inquietante: a imagem tem voz.
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Lucas, um virtuose do realismo, transcende a mimese técnica. Sua obra não é uma cópia da realidade, mas uma amplificação dela. Ao percorrer a superfície do papel, seus olhos funcionam como agulhas de um fonógrafo, lendo as ranhuras da existência humana para convertê-las em textura visual. O artista confidencia que a música atua como um "guia emocional", definindo a atmosfera onde a obra respira. É justamente esse oxigênio rítmico que impede seu realismo de ser estático; ele vibra.
Ao eleger Louis Armstrong como tema, Lucas aceitou o desafio de desenhar o indesenhavel: o sopro, a nota, o timbre rouco de uma era. "A expressão de Armstrong reflete a verdade que ele colocava em cada nota", define. O que vemos na tela é a captura dessa eletricidade. A pele do músico, renderizada com precisão microscópica, não é apenas epiderme, é mapa e história; o reflexo no trompete não é apenas luz, é o eco visual do mundo que Armstrong cantava.
A escolha não foi acidental. Guiado pela atmosfera de "What a Wonderful World", o artista buscou traduzir em grafite a filosofia da canção: a sacralidade das coisas simples. O azul do céu e o verde das árvores transmutam-se, aqui, na beleza das rugas de expressão e na geometria de um sorriso. Seu trabalho é um ato de revelação, limpando nossas lentes viciadas para que possamos ver a "textura da pele" e os "detalhes do cotidiano" com a mesma reverência dedicada a um clássico do jazz.
Contudo, se o realismo exige disciplina férrea, a arte de Ferreira clama por pulsação. Ao retratar um ícone de um gênero forjado na espontaneidade, ele funde rigor e intuição. Lucas descreve seu processo como uma "improvisação controlada": mesmo sobre a base sólida da técnica, há o instante do abismo, a decisão de confiar no instinto para ajustar luzes e intensidades. O traço flui com liquidez sonora, permitindo ao espectador atento quase ouvir o ritmo sincopado nas nuances de sombra, sentindo a humanidade daquele que transformava simplicidade em grandeza.
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Talvez a provocação mais profunda de Ferreira, no entanto, não resida no que ele desenha, mas no que nos faz indagar. Ele questiona: "Por que as pessoas não se olham no espelho com a mesma admiração que têm ao ver meus desenhos?".
Essa interrogação revela o cerne de sua poética. Sua missão é devolver ao observador a capacidade de se maravilhar com a própria imperfeição perfeita. Ao nos determos nos detalhes de Armstrong, somos convidados a reconhecer a beleza intrínseca da biologia e da emoção. Lucas não muda um traço da realidade; ele apenas a ilumina com uma luz que a pressa do dia a dia nos roubou.
Diante deste retrato, não estamos apenas vendo uma imagem; estamos imersos em uma experiência sensorial. A música cessa, mas a vibração permanece no papel, provando que, nas mãos certas, o grafite não apenas desenha — ele canta.
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