Gravado em Tempo Real

Lita Iguacel

Há uma leveza que pede demora. As aquarelas de Lita Iguacel chegam ao olhar como respiração — velas que cortam céus de rosa e ocre e azul lavado, cascos que se inclinam como corpos em movimento, a linha de nanquim atravessando a cor úmida sem ancorá-la, mantendo tudo em estado de partida. É preciso demorar diante delas para perceber que essa aparente dissolução é, na verdade, uma forma altamente controlada de equilíbrio. Que a leveza, aqui, não é ausência de peso — é escolha.

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E então a madeira.

Quando Lita pega a goiva, o gesto muda de natureza. Não há mais transparência, nem fluidez, nem a cor que encontra seu próprio caminho. Há resistência. Há o material que devolve pressão, que não perdoa a hesitação, que guarda para sempre a marca do que foi retirado. A xilogravura é a arte do que fica pelo que foi arrancado — e é exatamente nessa lógica, a da ausência como forma, do silêncio como linguagem, que Lita encontrou o instrumento mais preciso para dizer o que precisa ser dito.

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O tema que guia essa pesquisa é a desconstrução da comunicação. Não como denúncia panfletária, mas como investigação sensível sobre o que estamos perdendo enquanto ganhamos velocidade. Vivemos numa era em que palavras circulam em volumes sem precedente e o contato real — o olho que encontra o olho, a pausa que antecede a resposta, o peso do silêncio entre duas pessoas num mesmo espaço — se torna cada vez mais raro. Lita não condena a tecnologia. Ela pergunta, em madeira e tinta, o que acontece com a presença quando ela deixa de ser necessária.

E a xilogravura responde a essa pergunta com o próprio corpo. Não há como imprimir uma matriz sem estar ali — sem sentir a resistência do material, a irregularidade da fibra, o momento exato em que a pressão se torna imagem. É um processo que não admite distância. O que torna essa escolha ainda mais reveladora é o contraste com a aquarela: se na madeira Lita escava e tensiona, na água ela dissolve e suspende. São duas formas opostas de estar presente — uma que exige força, outra que exige rendição. Juntas, formam um vocabulário completo.

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Lita Iguacel começou a construir sua linguagem muito antes de nomeá-la. Nascida na Espanha e radicada no Brasil, ela carrega em si a experiência de quem sabe o que significa atravessar fronteiras — e o quanto esse movimento exige presença real, não mediada. Desde a infância entre fragmentos de cerâmica nos sítios arqueológicos do avô — onde aprendeu que os objetos guardam tempo, que a matéria fala — até os anos de formação na Santa Marcelina, a escultura em terracota, e finalmente a xilogravura no MAC, cada etapa foi um aprofundamento no mesmo tema central: o que uma superfície carrega além do que mostra.

É essa camada invisível que o espectador sente diante do seu trabalho. Não apenas o que está impresso ou pintado, mas o que o gerou — a decisão, o gesto, a escolha de estar ali e fazer aquilo com as mãos, o tempo e a matéria.

A madeira guarda a marca da goiva para sempre. Não há como desfazer o sulco. E talvez seja isso o que Lita nos lembra, com cada impressão, com cada vela que desliza sobre a aquarela: que presença deixa marca. Que o original não se recupera — só se reconhece, quando ainda é tempo.

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