O que é arte?
Justina D'Agostino
Arte, para mim, é o que nos permite sentir o instante no espaço, nos colocando sob sensações de espanto perante o significado de liberdade, entre vida e morte. Nos permite sermos presença diante da vida, dela fazendo parte, com tudo que disto possa vir a resultar.
Em 1990 fiz uma viagem para Quito, Equador. Na volta, meu desenho encontrou uma nova abertura. Ali comecei a entender o espaço e o tempo de uma forma nunca vista ou sentida antes.



Como artista, cheguei à conclusão que importante era minimizar o que chamamos de tempo para espaço e a ele ser proporcional, para atingir assim os limites que me eram permitidos ocupar e visualizar, pela extensão de um corpo que sempre se coloca como ponto de observação para refletir, absorver, associar e fazer as possíveis analogias que possibilitassem forma, sentido e razão de ser à morada de passagem que todos habitamos.


“Quem nos desviou assim, para que tivéssemos um ar de despedida em tudo que fazemos? Como aquele que partindo se detém na última colina para contemplar o vale na distância – e ainda uma vez se volta, hesitante, e aguarda – assim vivemos nós, numa incessante despedida. [...]” Rainer Maria Rilke 1
1 - Elegias de Duino (Duineser elegien) Rainer Maria Rilke / Tradução Dora Ferreira da Silva - Editora Globo - 4ª edição Oitava elegia (p. 47-48)


Acredito que a arte nos une pelo universo de nossos desenhos. Nossos desenhos se configuram pelas linhas que conectam pontos. Toda configuração traz em si um processo, uma história, que se torna uma representação para um mundo sem fronteiras. Espero, com minhas histórias, compartilhar pontos de referência, complementações de pertencimento, para que possamos ter uma visão de mundo ampla, solidária e fraterna.










“[…] Às vezes minhas mãos se reconhecem ou meu rosto nelas tenta se abrigar. Isto me dá uma certa consciência de mim mesmo. Quem, no entanto, por tão pouco ousaria ser? […]” Rainer Maria Rilke 2
2 - Elegias de Duino (Duineser elegien) Rainer Maria Rilke / Tradução Dora Ferreira da Silva - Editora Globo - 4ª edição Segunda elegia (p. 11)












“Quem se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse inesperadamente em seu coração aniquilar-me-ia sua existência demasiado forte. Pois que é o Belo senão o grau do Terrível que ainda suportamos e que admiramos porque, impassível, desdenha destruir-nos? Todo Anjo é terrível. […]” Rainer Maria Rilke 3
3 - Elegias de Duino (Duineser elegien) Rainer Maria Rilke / Tradução Dora Ferreira da Silva - Editora Globo - 4ª edição Primeira elegia (p. 3)





O mundo gira, e entre mar e terra... murmuramos. Escolhemos lados e eliminamos arestas na rigidez das margens, para nela caminharmos em sobreposição de tempos. Ouvimos e navegamos... em águas profundas de mar em calmaria, para ali adormecermos, abraçando a vida em sonho.
Justina D'Agostino
Graduada em arquitetura pela FAAUSP em 1977, Justina iniciou sua incursão no mundo da arte em 1983, onde desde então vem construindo uma trajetória repleta de realizações e reconhecimento.
Seu interesse pelas artes plásticas transcende o mero domínio técnico, impulsionado por uma profunda convicção na capacidade da arte de conectar pessoas através de seus desenhos. Para Justina, suas obras são convites para explorar um mundo de narrativas e conexões, onde as linhas traçadas se convertem em pontes entre diferentes perspectivas e experiências.
O estilo artístico de Justina é intrinsecamente ligado à sua visão de mundo, refletindo uma fusão de observação meticulosa e interpretação criativa. Seu processo de pintura é uma espécie de diálogo constante com o entorno, onde pinceladas são reflexões de sua percepção sensível dos elementos que a cercam. Como uma escritora de histórias visuais, ela transforma suas experiências cotidianas em composições vívidas, destacando nuances e detalhes que capturam a essência do momento.
Suas obras, marcadas pela beleza e pela profundidade emocional, são testemunhos da sua busca incessante pela expressão autêntica e pela conexão humana.


