A tela depois do filme

Julianne Trein

Pintar é, para Julianne Trein, um ato de reencontro. Não de técnica — de sensação. Aquela que ela experimentou ainda criança ao colorir um desenho e sentiu o mundo caber inteiro dentro das cores. Tudo que veio depois — a formação autodidata, os anos de estudo com Zélio Andrezzo, as encomendas, as exposições — foi construído sobre esse fio primeiro: a crença de que a cor carrega emoção antes de carregar forma. Como um diretor que sabe exatamente qual luz quer antes de escrever uma linha do roteiro.

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Catarinense de São Miguel do Oeste, radicada na Grande Florianópolis desde 2003, Julianne transita entre paisagens e retratos com uma linguagem que parte do realismo e deixa entrar, quando quer, a vibração da luz impressionista. O que unifica sua produção não é o estilo — é a temperatura emocional. Em Sábado com a Vovó, a cena campestre pulsa com a qualidade específica de uma memória feliz: a luz é quente demais para ser apenas luz, os sorrisos largos demais para serem apenas sorrisos. É o tipo de cena que o cinema reconhece — aquela em que nada acontece, e tudo está acontecendo.

Em Você Me Faz Tão Feliz, a Ponte Hercílio Luz surge à noite sob lua cheia, e um casal se abraça no cais enquanto a cidade toda reflete na água. A escala é épica, mas o gesto é íntimo — Julianne sabe que o monumental só tem sentido quando serve ao humano. Nas paisagens, a amplitude é outro registro do mesmo impulso: o cavalo em pleno salto congela um segundo de força cinética pura; em Lightscape, a aurora boreal seduz sem intimidar, e a estrada que some na neve convida o olhar para dentro, não para cima. No pescador lançando a tarrafa sobre águas catarinenses, a tela respira com a calma de quem sabe que há beleza no gesto repetido por gerações — e que esse gesto merece ser visto.

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Em Rose — pintada em 2022 — Julianne não observa o mundo: interpreta uma imagem que o Titanic gravou no imaginário coletivo. A personagem reclinada, os olhos azuis desviados para além do quadro, a pedra azul do colar como único acento frio numa tela inteiramente quente — tudo recomposto com a precisão de quem entende que retratar um ícone cinematográfico não é copiar um fotograma, mas descobrir o que nele permanece quando a tela apaga. O que Julianne encontrou foi isto: não a personagem — mas a emoção que ela deixou no mundo.

É exatamente aí que sua obra toda converge. Não no que mostra — mas no que faz o espectador sentir antes mesmo de entender o que está vendo.

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