Isabella Marinho

O Corpo em Muitos Tempos

Um corpo raramente aparece uma vez só nas telas de Isabella Marinho. Ele se repete — sentado, reclinado, de perfil, de costas — espalhado pela superfície como se um único gesto tivesse sido decomposto em vários instantes e todos fossem mostrados de uma vez. Não são figuras diferentes: é a mesma presença, flagrada em tempos sucessivos e reunida num só plano. Olhar para essas obras é ver o movimento parado e aberto, quadro a quadro, diante de nós.

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Não é por acaso que o corpo esteja no centro de tudo. Antes do desenho, foi no teatro e nas técnicas corporais que Isabella encontrou as artes, ainda jovem, na Paraíba — e essa origem nunca a abandonou. De volta ao Rio, onde nasceu, lapidou o ofício nos ateliês da EAV Parque Lage, mas manteve a lição primeira: o corpo não é assunto, é linguagem. Ela desenha, corta, remonta, redesenha, e o papel remontado guarda as emendas, as linhas que não coincidem, os cantos sobrepostos. Nada é liso. Cada figura carrega a memória do gesto que a fez.

Desse método nasce um campo onde presença e ausência se alternam: corpos que surgem com nitidez de contorno e corpos que se dissolvem em mancha, como se estivessem a um instante de aparecer, ou a um instante de sumir. A paleta contida — ocres, cinzas, negros, o branco da tela crua — retira da cena qualquer anedota e deixa só o essencial: o corpo e o tempo. Não vemos uma pessoa específica num lugar específico; vemos o rastro de um estado, a forma que um sentimento assume quando perde o nome e fica só o gesto. Quando a cor irrompe — um vermelho, um azul, um veio de ouro —, ela não decora: marca um ponto de calor no meio do silêncio.

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O que sustenta tudo isso é a insistência. Isabella pertence à linhagem dos artistas que fazem da repetição um modo de existir — que voltam ao mesmo corpo, ao mesmo gesto, não para acertá-lo de vez, mas porque é no refazer que o sentido se revela. Cada tela é uma travessia: o pensamento em fluxo, a vulnerabilidade assumida como força, a mão que recomeça sabendo que nenhuma forma será final. A obra não conclui a figura; acompanha-a enquanto ela se procura.

Talvez seja essa a sua verdade mais funda: o corpo, aqui, nunca está inteiro porque nunca estamos. Somos feitos de tempos que não coincidem — o que fomos, o que somos, o que ainda tentamos ser, tudo ao mesmo tempo na mesma superfície. Diante dessas telas povoadas de gestos, ficamos à espera de que as figuras enfim se juntem numa só. Elas não se juntam. E é justamente nesse quase — no ponto em que quase se reconhecem — que elas mais se parecem conosco.

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