A Bióloga e a Pintora

Havilah Abrego

Há um azul que não se aprende em estúdio. Que só existe a doze metros de profundidade, quando a luz do sol atravessa a coluna d'água e se fragmenta em gradações que nenhuma teoria da cor consegue prever. É esse azul — vivido, mergulhado, sentido no corpo antes de ser pensado pela mente — que Havilah Abrego traz para a tela. Suas pinturas de baleias jubarte não são representações do oceano: são memórias dele. Cada camada de acrílica é uma tentativa de devolver à superfície o que só existe nas profundezas.
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Nascida em Los Angeles em 1997 e radicada em Honolulu, no Havaí, Havilah iniciou seu mergulho literal no oceano aos 12 anos — a mesma idade em que descobriu que pintar era uma porta para outro mundo. Não é coincidência: ambos os gestos partem do mesmo impulso, a necessidade de entrar no que não se vê da superfície. Estudante de biologia marinha e astrofísica na Universidade do Havaí, ela habita simultaneamente dois territórios que a cultura insiste em separar. Mas para Havilah, a separação nunca existiu. A bióloga e a artista não são identidades que se alternam — são estados de um mesmo olhar que aprende a ver em camadas.
O que distingue seu processo de qualquer naturalismo convencional é a recusa da fotografia como ponto de partida. Havilah pinta majoritariamente da memória e da imaginação — não por limitação técnica, mas por convicção filosófica. A memória, para ela, é o filtro que preserva o que a câmera não captura: a sensação de escala diante de uma baleia de oito metros, o silêncio específico das profundezas, o que ela chama de maravilha infantil — essa capacidade de ver o mundo como se fosse a primeira vez. É essa maravilha que ela quer reacender em quem contempla suas obras. E é precisamente por isso que suas telas, mesmo as maiores, têm algo de íntimo: são convites a uma experiência que a tela não pode conter, apenas invocar.
À medida que o conhecimento científico se aprofunda, a pintura de Havilah se expande — não se torna mais literal. A ciência não domestica o olhar; o complexifica. Ela descreve essa tensão com a clareza de quem a vive: quando mergulhada no pensamento analítico, a artista consegue capturar com precisão o comportamento e a linguagem corporal dos cetáceos; quando a criança de oito anos dentro dela assume o pincel, a luz, as cores e a perspectiva ganham uma liberdade que o rigor científico sozinho não permitiria. O resultado é uma dança entre esses dois modos de habitar o mundo — e é exatamente nessa interseção que a obra acontece.
As baleias não são apenas tema — são argumento. Mamíferos como nós, com papel vital no equilíbrio dos ecossistemas marinhos, elas habitam um mundo paralelo que raramente reconhecemos como parte do nosso. Para Havilah, essa invisibilidade é o problema central: vivemos no mesmo planeta que nossos ancestrais marinhos e os tratamos como se fossem decoração de outro universo. Suas telas de grandes formatos — a maior delas com quase dois metros e meio de altura — recusam essa invisibilidade. Uma baleia pintada em escala real não cabe no esquecimento. Ela ocupa o espaço, exige presença, convoca responsabilidade.
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Nesta edição Code Blue, o azul de Havilah Abrego não é cor de urgência nem cor de contemplação — é cor de pertencimento. O azul profundo das suas telas é o mesmo azul que cobre 71% da superfície do planeta e que a maioria de nós jamais habitou de verdade. Ao pintá-lo da memória, com os pincéis herdados do avô que não chegou a ver suas obras, Havilah não documenta o oceano: lembra a quem o olha que ele existe, que é vivo, e que compartilhamos com ele uma história muito mais longa do que qualquer um de nós consegue imaginar.
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