O Vermelho em Sol Maior
Gianella Riephoff
Diante de uma tela de Gianella Riephoff, o silêncio desaparece. O observador logo percebe que ali existe música. A artista — uruguaia radicada na luz de Florianópolis — cria obras que parecem vibrar. Em meio a pinceladas e sobreposições, um protagonista aparece soberano: o vermelho.





Ao contrário do que se imagina sobre a "paixão latina", o processo de Gianella não é caótico, mas guiado pela ordem da música clássica. O vermelho para ela é melodia. Funciona como uma partitura perfeita, regida por piano e violinos. Músicas de compositores como Max Richter (especialmente November e Recomposed) ajudam a artista a entrar em um estado de foco total, onde o movimento repetitivo de pintar se torna quase uma meditação.
Existe uma fluidez natural na forma como Gianella aplica sua força. Quando questionada sobre o ritmo de sua obra, ela cita Moldau, poema sinfônico de Bedřich Smetana. Assim como na música, que imita um rio nascendo e atravessando corredeiras, o vermelho de Gianella tem humores variados: ora desliza delicado, aplicado com suavidade, ora explode com força no meio de azuis e verdes. "Gosto de ser assim, explosiva", admite ela, com a segurança de quem encontrou sua própria voz.
Recentemente, esse vermelho ganhou novos significados. Se antes era abraço e celebração, ao encontrar o tema da Amazônia, tornou-se alerta. Mas Gianella não gosta de definições presas. Para ela, o vermelho é um fio infinito que costura memórias e emoções. Pode ser harmonioso ou agressivo, mas é sempre a mão que guia o pincel.
Gianella pinta o que escuta no silêncio íntimo, transformando emoções em pigmentos carregados. Se sua obra pudesse ser tocada, não soaria como um tambor, mas como o vibrato de um violoncelo no clímax de uma peça contemporânea: clássico, ousado, atrevido e potente.
No centro dessa criação, esta cor não é apenas tinta, mas a própria energia vital. É o vermelho que se impõe, uma extensão do íntimo da artista que se derrama sobre a tela de forma hipnótica e irreverente. "Eu sou o próprio vermelho", diz ela. E conclui: "Cabe a cada espectador decidir qual o impacto que esse encontro — tela, tinta e observador — produz nele. Cabe a mim, me jogar por inteira nessa tela."
O público, ao mergulhar nesse universo, é convidado a testemunhar o encontro entre a disciplina da partitura e a força da execução. As telas de Gianella Riephoff são convites para ouvir a cor. E o vermelho, em sua maestria, canta a vida com a urgência de uma nota que se recusa a silenciar.





