A Cena era uma Flor

Érica Nogueira

Quando um diretor desiste das palavras, ele filma uma flor. A câmera abandona o rosto, desce até o canteiro e deixa a corola dizer o que o personagem não sustentaria. A flor entra em cena como um bailarino que não dança: apenas segura a pose, e o silêncio vira coreografia.

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Filme: Um Bom Ano

Aquarela em Canson A4 – Ano 2026

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Filme: Memórias de uma Gueixa

Aquarela sobre Canson A2 – Ano 2025

Érica Nogueira aprendeu isso antes do cinema. Há tempos pinta a flor como quem disseca um órgão — não a que enfeita, mas a que respira, guarda, ameaça —, certa de que não existe fronteira entre o corpo e o que floresce fora dele. Faltava virar a câmera ao contrário: as flores que os diretores plantam em seus planos já estavam, todas, dentro das dela. A mancha de água dissolve como um foco que se perde; o contorno de caneta corta como a montagem corta. Cada obra é um plano paralisado no instante exato em que diria demais.

Para o desejo, a rosa. Vermelha como a única cor que o medo e a paixão dividem — sob uma redoma, vira sentença: o que se protege é condenado a contar o tempo, pétala por pétala, o amor que precisa acabar para provar que existiu. A rosa de Érica não pede para ser cheirada — pede para ser temida.

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Filme: A Bela e a Fera

Fotografia – Flor em aquarela em cúpula de vidro – Ano 2026

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Filme: Van Gogh

Fotografia: Flor em aquarela em vaso de cristal – Ano 2026

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Filme: Ofélia

Fotografia – Flor em aquarela no vaso em pedra sabão – Ano 2026

A cerejeira não ameaça: despede-se. Floresce para ensinar a perder, como o cinema japonês que a enquadrou mil primaveras para dizer que a beleza só é beleza porque passa. A papoula dorme — o campo vermelho que adormece a menina no caminho amarelo, e o mesmo vermelho que cobriu a terra depois da guerra: sono e memória crescem do mesmo caule. O lírio carrega o que costuma se excluir, pureza e morte; é a flor que boia ao lado de Ofélia quando a água a leva cantando, branco demais para ser apenas inocente. O girassol segue a luz com a lealdade de quem não sabe fazer outra coisa — esperança que um pintor holandês transformou em autorretrato. E a lavanda, sem tragédia alguma, é o roxo da desaceleração, do campo onde alguém recomeça a vida devagar.

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Filme: O Mágico de Oz

Aquarela em Canson A4 – Ano 2026

Em alguns trabalhos, uma mulher se deita entre as flores e fica — sustenta a pose até o corpo virar paisagem, e o espectador deixa de assistir para habitar o quadro. Em outros, a flor abandona o papel: recortada da própria aquarela, levanta-se dentro de um vaso de verdade, sob uma redoma de verdade. A pintura faz o que o cinema apenas sonha — sai da tela e entra na sala.

Talvez seja isso o que Érica propõe: que toda flor já foi, um dia, um plano esperando para ser pintado. Que muito antes do roteiro, alguém olhou para uma corola e entendeu a história inteira. A câmera veio só depois — confirmar o que a pétala já sabia.

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