A Acústica do Jardim
Érica Nogueira
No clamor da selva de concreto, onde o ritmo da cidade muitas vezes abafa as frequências sutis da vida, a arte de Érica Nogueira surge como um convite à sinestesia, um portal para um jardim onde a cor tem timbre e o silêncio é uma melodia. Suas flores são acordes visuais que brotam de um território íntimo, onde a delicadeza se revela a mais potente das forças. Cada pétala, cada traço, desdobra um universo de sentidos, transcendendo a flora para se tornar um símbolo de vida, transformação e, sobretudo, de contemplação.


Para a artista, a pintura é um ato de esperança, um gesto que busca o "acorde maior de luz" na vida de quem a contempla. Longe de evocar a saudade, seu trabalho é um convite ao frescor e à alegria. Essa intenção se manifesta na sua relação com o som durante o processo criativo. Em vez de buscar canções ou partituras, Érica sintoniza a frequência mais essencial: "Nesta série, eu ouço os pássaros… o barulho da natureza que é música para nós que moramos em uma cidade tão intensa e barulhenta como São Paulo." A natureza, com seu ritmo de gotas de chuva e a melodia do vento, é a principal música em suas obras, um registro que ela carrega na memória e na emoção.
A sofisticação de sua obra reside na maneira como ela instrumenta sua técnica. Há uma dualidade fascinante — uma conversa entre o líquido e o sólido — que Érica traduz em termos musicais precisos: a aquarela é o seu piano, fluida e melódica, derramando notas de cor que se expandem no papel como o som no ar; a caneta, por sua vez, assume o papel da bateria, a percussão necessária que dá ritmo, contorno e estrutura à composição etérea. É nessa fusão entre a mancha que canta e o traço que marca o tempo que sua estética floresce.
Tal como Kandinsky, que ouvia cores e pintava sinfonias, Érica compreende que a abstração da música e a figuração da flor compartilham a mesma raiz emotiva. Ela transita por gêneros visuais com a desenvoltura de quem muda de faixa em um disco: há flores que vibram na intensidade elétrica do rock — rosas vermelhas de presença inegável — e há aquelas que sussurram a intimidade de uma bossa nova, como orquídeas e lavandas que pedem um tempo mais lento, uma contemplação acústica. "Cada pintura tem sua própria voz", diz ela, mas quando vistas em conjunto, formam um coro.
Ao contemplar suas obras, o espectador é convidado a uma pausa, a um "descanso e à reflexão" que as Lavandas, por exemplo, inspiram. Érica, que se inspira em mestres como Kandinsky — que buscava registrar imagens abstratas a partir de músicas clássicas —, espera que seus jardins musicais cantem na alma de quem os observa uma "canção de esperança, de paz, de mansidão".
Contemplar sua pintura é experimentar o instante raro em que o olhar se torna audição interna. E, por um momento, o mundo desacelera. A beleza — essa que quase esquecemos — toma o lugar do ruído.





