A Frequência Code Blue
Enivo
Há uma frequência cromática em São Paulo que encanta os olhos atentos, transcendendo a rigidez do concreto armado. É preciso um olhar treinado na energia magnética da rua para celebrá-la. Mais do que capturar essa cor, Enivo a potencializa. Em nossa capa da edição Code Blue, o artista, nascido Marcos Ramos no Grajaú, não se apresenta apenas como um muralista que venceu a escala monumental da metrópole, mas como um arquiteto de portais.


A obra de Enivo opera na tensão entre o efêmero e o eterno. Seus murais de 15 andares não são simples pinturas sobre empenas cegas; são rasgos na pele cinzenta da cidade, feridas curadas com pigmento. Na superfície de suas criações, deparamo-nos com um azul que transcende o céu e o mar: uma dimensão elétrica onde habitam seus seres.
O conceito que sustenta a poética de Enivo é uma espécie de arqueologia do futuro. Suas figuras — comumente marcadas por máscaras, as vezes por múltiplos olhos e adornos que fundem o tribal ao tecnológico — habitam o que ele denomina de Afrofuturismo, mas que transcende o rótulo. São guardiões de um tempo não linear.
Ao contemplar suas "Cabeças", série que evoluiu do spray no muro para o acrílico sobre madeira, percebe-se que o artista não retrata pessoas; ele materializa energias. O olhar dessas figuras, muitas vezes direto e desconcertante, funciona como um espelho côncavo: devolve ao observador uma imagem ancestral que a modernidade tentou apagar. É uma arte de presença.
Se nos murais Enivo domina a vertigem da altura, em sua recente série 'Caixinhas', desenvolvida durante uma residência em Lisboa, ele nos convida à intimidade do segredo. Apropriando-se de suportes tridimensionais de madeira resgatados do esquecimento , o artista constrói dioramas que funcionam como verdadeiras cápsulas poéticas.






Nesta edição, celebramos Enivo não apenas pelo currículo que atravessa continentes — da Pinacoteca de São Paulo às ruas de Wynwood e galerias em Colônia —, mas pela capacidade de manter a arte viva e latente. Sua atuação como educador e ativista cultural não é um adendo à sua biografia; é a própria tinta.
Enivo pinta como quem respira em uma atmosfera rarefeita. Seu uso habitual do azul funciona como um "Código Azul" hospitalar: um sinal de emergência para reanimar a sensibilidade urbana. Diante do cinza que tenta, diariamente, extinguir o brilho da cidade, a arte de Enivo é a desfibrilação necessária.
Ele nos prova que o muro não serve para dividir, mas para suportar a mensagem. E a mensagem é clara e inevitável: o futuro tem cor, tem memória e está vivo.


