O Som que a Esferográfica Escreve
Elson Junior
Na ponta da caneta de Elson Júnior, o silêncio do papel branco não é um vazio; é uma pausa rítmica. Artista de traço obstinado e alma ancestral, Elson transmutou a ferramenta mais prosaica do cotidiano — a caneta esferográfica — em um instrumento de alta precisão melódica. Para esta edição especial "Música que se Vê", ele não apenas retrata ícones; ele sintoniza suas frequências, transformando a tinta em um sulco de vinil onde a história gira, vibra e ressoa.



Contemplar sua constelação de homenagens a Miles Davis, Seu Jorge, Milton Nascimento e Cartola é uma experiência sinestésica. Não há o ruído das cores exuberantes, mas a densidade sinfônica das sombras. Elson constrói volume através da sobreposição de linhas, uma técnica que mimetiza o próprio ato de compor: nota sobre nota, linha sobre linha, até que a alma do músico emerja do papel.
No retrato de Miles Davis, o traço de Elson parece capturar o exato instante em que o som se torna matéria. Há uma tensão contida na esferográfica, uma precisão que ecoa o trompete minimalista de Miles. O artista desenha o sopro, a introspecção e a frieza elegante de um jazz que não precisa gritar para ser profundo. Já em Cartola, a caneta de Elson parece mudar de andamento. O traço curva-se à poesia das rosas que não falam, mas que ele faz florescer. Pintar o mestre da Mangueira é, para o artista, um ato de reverência à nobreza do samba; é fixar na ponta da caneta a delicadeza de um hino que atravessa gerações.
Em Milton Nascimento, o "Bituca", o traço de Elson Júnior se torna mais telúrico. Milton surge com a dignidade de quem carrega o tempo dos rios e das Minas em sua voz. Aqui, a caneta funciona como um registro sismográfico do afeto; cada hachura é um verso, cada detalhe no olhar é um eco das Gerais. Em Seu Jorge, a crônica visual de Elson destaca a potência da presença negra contemporânea, a elegância do cotidiano que se faz realeza através do talento e da resiliência.
Formado em Artes Plásticas pela UFBA, Elson Júnior carrega o DNA de Salvador — uma cidade onde o som é fundamento. Seu trabalho é um exercício de escuta visual. Ele abdica das tecnologias complexas para retornar ao essencial: a ponta seca e a tinta esferográfica. Esse despojamento material é, em si, um gesto político e poético. Enquanto o mundo acelera, Elson desacelera o tempo para ouvir o que cada rosto tem a dizer.
Diante dessas obras, o espectador é convocado a abandonar a pressa. É preciso "ler" o desenho como se lê uma partitura complexa. Perceber que nas áreas de sombra mais profunda, a caneta passou mil vezes — um tambor persistente batendo na mesma tecla até furar o silêncio.


