A Partitura do Tato
Ellis Monteiro e a Música Silenciosa da Argila
Certas harmonias não foram feitas para serem ouvidas, mas sentidas como uma vibração na derme. É nessa acústica do toque que trabalha Ellis Monteiro. Em suas mãos, a matéria abandona o estado sólido para fluir como uma melodia tátil. Para esta edição especial, a artista nos oferece o som do gesto: silêncios moldados que desafiam a pressa. Sua obra flui na cadência do sussurro, transformando a argila em 'Casca' — uma partitura de proteção que abriga, no seu interior, a memória de um fazer milenar.


Existe uma música que renuncia ao ouvido para reverberar diretamente na pele. No ateliê de Ellis Monteiro, a argila não é matéria muda; ela atua como caixa de ressonância da floresta, transformando o som em presença tátil. Para a edição Música que se Vê, a artista subverte a pauta: não nos entrega melodias, mas silêncios esculpidos à mão. Sua obra habita a frequência do sussurro, onde o barro se transmuta em 'Casca' — uma película sensível que guarda, protege e ecoa a ancestralidade do gesto humano.
As marcas digitais deixadas na superfície das obras — sejam nas séries "Casca" ou na horizontalidade acolhedora das "Vagens" — funcionam como uma pauta musical inscrita na matéria. Não há moldes, não há reprodução mecânica. Quando Ellis repete uma forma, ela não busca o refrão, aquela parte da música que retorna idêntica para fixar a memória. Para ela, a repetição é "ensaio". É a insistência na busca pela singularidade, onde cada variação de contorno exalta a imperfeição vital que distingue a arte da indústria.


Essa filosofia se desdobra em uma dinâmica musical. Algumas peças nascem de um impulso rápido, um allegro, quando a ideia exige ser transposta para a matéria sem demora. Outras emergem em um movimento lento, um adágio, pedindo “mais calma, mais presença, menos explosão”. A paleta, quase sempre contida em tons de argila e um branco opaco, funciona como um silêncio harmônico que realça a pureza da forma. Suas cerâmicas não são meros utensílios; são convites a um ritual sensorial, onde a textura e a alma da "Casca" adicionam profundidade ao simples prazer de partilhar um momento, transformando o ato de comer em uma experiência de atenção plena.
O clímax do processo criativo não é o fim, mas uma virada de chave. O forno, para Ellis, não encerra a composição; ele é “o começo de uma nova e surpreendente” partitura. A alquimia do calor sobre os esmaltes e a argila introduz o acaso como um músico virtuoso, garantindo que nenhuma peça seja idêntica à outra. E quando a obra finalmente encontra o mundo, ela se liberta de sua autora. Não é uma música que cessa, mas “uma música que começa para quem vê”. O olhar, o toque e a sensibilidade do outro agregam novos arranjos, funções e ressonâncias, muitas vezes distintas daquelas que a artista imaginou.








No final, o que Ellis Monteiro espera que floresça de suas criações é a semente de tudo: “Espero que floresça a sensibilidade”. Suas cascas de argila são, em essência, instrumentos de percepção. São depositadas em nossas mãos com uma missão silenciosa: afinar nosso olhar para o mundo, nos ensinar a escutar sua pulsação e, talvez, nos ajudar a encontrar nosso próprio ritmo em meio ao ruído.


