Demorar-se

Cida Mota

A pintura de Cida Mota, ou a arte de não deixar o instante passar.

Pintar como Cida Mota pinta é, antes de tudo, recusar a pressa. O olho que a conduz não atravessa o mundo — permanece nele. Detém-se onde outros passam: na luz presa entre duas penas, na água que ainda não escorreu da pétala, no brilho úmido dos olhos de uma criança. A tela não é a superfície onde se representa algo distante — é onde uma coisa vista é convidada a ficar.

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Seus temas parecem dispersos: um carro que corre, uma flor que repousa, dois pássaros inclinados um sobre o outro. Reunidos, revelam um só movimento. Do bólido que rasga a pista à gota suspensa que teima em não cair, é sempre o mesmo gesto — segurar um instante para que ele não escape. O realismo, em suas mãos, é técnica que se faz atenção: a decisão de estar inteira diante do que vê.

Nasceu em Fartura, no interior paulista, num 21 de junho — no ponto mais fundo do ano, de onde a luz recomeça. Aos quatro anos cruzou a fronteira de um estado e não voltou: Minas Novas tornou-se o chão de toda a sua vida. Antes da tinta, houve a palavra. Formada em Letras, professora por ofício, passou anos ensinando a ler o mundo em signos — e reconhece, na pintura, outra gramática do mesmo assombro. Trocou um alfabeto por outro sem abandonar nenhum. A voz que ensinava agora tem corpo, pincel, demão.

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A pintura chegou em 2005 e amadureceu quando, em 2022, escolheu o realismo como disciplina. Não foi um começo tardio — foi um começo maduro, de quem já aprendera a esperar. A sala de aula ficou para trás; a atenção, não. É dessa atenção que se faz a obra: o estudo paciente da luz, da forma, da textura, do que a cor faz quando encontra a pele, a pena, a chama.

O que sua mão pratica é a proximidade. Uma cozinha de roça onde a fumaça ainda sobe do fogo aceso agora; o rosto de Cristo, coroado de espinhos, tão perto que se contam os fios de cabelo. Cida aproxima o visível até a distância do toque — devolve ao presente o que já parecia ido. Nesse ofício, a ternura é exata: a de quem olha sem desviar os olhos.

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Toda a sua obra vive no tempo do agora — não o que corre, mas o que se detém. O instante retido pela tinta até tornar-se presença. Diante de suas telas, o espectador não recebe uma imagem: é convocado a também demorar-se, a olhar como quem tem tempo.

E fica sempre aquela gota — a que a flor sustenta na borda da pétala, prestes a cair e que não cai. Nela cabe tudo o que Cida Mota aprendeu a pintar: o mundo suspenso um segundo a mais, antes que o tempo o leve.

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