O Lado B da Memória
Charles Barreto
O som, por definição, é vibração no ar; é invisível e efêmero. Mas no ateliê de Charles Barreto, o som ganha corpo, peso e textura. Produtor cultural à frente do efervescente Dolores Club e "garimpeiro" de histórias, Charles não se contenta em ouvir a música: ele precisa retê-la. Para esta edição de Música que se Vê, o artista nos convida a emergir em uma câmara de eco visual, onde a melodia não entra pelos ouvidos, mas é capturada pela retina.


Charles deixou de colecionar apenas relíquias para colecionar frequências. Suas mãos, habituadas à rugosidade do ferro e à nobreza da madeira, agora se debruçam sobre o intangível — a síncope, o timbre, o matiz —, convertendo o som em uma matéria tátil, densa e visceral.
Sua abordagem artística é a de um alquimista que transita entre a solidez do objeto e a fluidez do ritmo. Na obra que ancora sua participação — uma assemblage complexa que une vitrola e prato dos anos 60, lança-dardos dos anos 70 e pintura a óleo sobre veludo —, Charles opera uma estratigrafia da cultura pop. Não estamos diante de uma mera justaposição de antiguidades; estamos diante de um altar profano dedicado à era analógica.
O veludo, suporte que carrega em si uma ambiguidade entre a nobreza e o kitsch, funciona aqui como uma "espuma acústica" poética: ele absorve o olhar, convidando ao toque, enquanto a vitrola sugere um som suspenso, uma canção que parou de tocar mas continua vibrando na memória do objeto. A inserção dos lança-dardos rompe a nostalgia passiva com um elemento de tensão e alvo, lembrando-nos que a arte e a música são, também, jogos de precisão e risco. Charles costura décadas díspares para criar uma "canção sólida", uma peça onde a história do design e a memória auditiva se fundem em uma presença escultórica inegável.
No contraponto a essa materialidade densa, surge a leveza cinética de "Trem das Cores". Inspirada na obra-prima de Caetano Veloso, esta pintura não tenta ilustrar a letra; tenta emular o balanço. Se a assemblage é o objeto estático, esta tela é o movimento puro. Charles traduz a síncope do trem e a sucessão de imagens da janela em pinceladas que recusam a forma fixa. É uma obra sinestésica: ao olharmos para as cores que se desdobram, somos transportados para o ritmo da viagem, sentindo a velocidade e a transição da paisagem. O artista captura não o que o olho vê, mas o que a alma sente quando a música dita o horizonte.


