Cor e Cura
Carol Poci
A trajetória de Carol Poci é um fascinante estudo sobre a transmutação. Médica por formação, a artista visual paulistana não apenas coexiste com o rigor da ciência, mas o utiliza como um prisma para refinar sua percepção. O cerne de sua expressão reside na pintura, onde a memória de suas viagens, inicialmente retida pela precisão da fotografia, é liberada em uma linguagem de cor pura e vibracional. Suas telas não buscam a cópia fiel do real; elas buscam a destilação da experiência, a essência luminosa e emocional de um lugar. É na tela que o efêmero da viagem encontra a permanência da arte, e o olhar clínico se rende à intuição estética.



A fotografia, em seu processo criativo, funciona como um mapa de sensações, um ponto de ignição para a jornada alquímica da cor. Ao transpor a imagem para a tela, Carol executa um ato de fidelidade emocional, abandonando o registro documental em favor da intensidade. Suas paletas são audaciosas, magnéticas, sugerindo que a cor, em suas mãos, é mais do que um atributo: é o próprio pulso da obra. As sensações de um lugar — o calor, a energia, a profundidade — são destiladas em frequências que vibram, conferindo às suas pinturas uma presença quase física, um convite irrecusável ao mergulho sensorial.
O pensamento estético de Carol Poci é um testemunho da resiliência da esperança. Em suas telas, a cor intensa não é um artifício, mas um gesto de afirmação. É a resposta lírica à alta carga de estresse da rotina médica, uma válvula que se transformou em voz potente. Cada pincelada é um ato de celebração da vida, um registro de que, após o diagnóstico e o tratamento, a beleza e a curiosidade persistem. A artista utiliza a tela em branco como um novo horizonte, onde a memória da viagem se funde com a intuição do presente, criando composições que são, ao mesmo tempo, explosões de cor e momentos de profunda contemplação.


Em última análise, a pintura de Carol Poci é um gesto de cuidado que se manifesta pela via estética. Ela nos convida a ver o mundo não como ele é, mas como ele pode ser sentido: um lugar de cores intensas, de possibilidades infinitas e de memórias que merecem ser celebradas. Sua arte é a prova de que a verdadeira versatilidade reside na capacidade de utilizar todas as ferramentas disponíveis — do rigor científico à liberdade criativa — para retratar a vida em sua plenitude vibracional.


