O Direito de Fluir
Carol Couri
Existe um momento preciso em que a lógica cede lugar ao fluxo. Para Carol Couri, nascida em São Paulo e com a estrutura intelectual lapidada por um mestrado em Toronto, esse é o instante da criação. Em um mundo regido por códigos, leis e sentenças — universo que ela habitou por anos através de sua formação jurídica —, seu ateliê surge não como fuga, mas como um território de "transmutação". Ali, a artista não busca o veredito, mas a reticência; não persegue a forma justa, mas a liberdade exata do gesto que se faz no agora.



A pintura de Carol Couri é um exercício de confiança no invisível. Autodidata, ela aborda a tela branca sem a rede de segurança dos esboços prévios. Seu processo é visceralmente musical: uma improvisação onde o pincel atua como instrumento solista, guiado não pela visão, mas pela escuta interna. Se a música e a natureza são suas fontes primordiais, elas não aparecem em sua obra como representação literal, mas como ritmo e bio-mimetismo. O que vemos não é a paisagem, mas a pulsação da terra; não é a canção, mas a vibração da nota suspensa no ar.
Há uma coragem intrínseca em sua abstração. Em tempos que exigem definições rápidas, Carol opta pelo mistério do acaso. Suas linhas, ora geométricas, ora orgânicas, surgem espontaneamente, como se a própria mão fosse apenas uma antena captando frequências de seu estado de espírito. É uma pintura que se constrói no gerúndio: acontecendo, fluindo, transformando-se. Quando figuras surgem desse caos cromático, elas não estão presas; parecem flutuar em um líquido amniótico de cores que variam da euforia solar à introspecção noturna.
O isolamento de 2020 foi o catalisador dessa intensidade. No silêncio do mundo, Carol encontrou o volume máximo de sua própria voz. O que começou como um canal terapêutico transmutou-se em uma busca por estados elevados de consciência. Sua arte opera como um diapasão: busca afinar o ambiente, elevar a frequência, devolver ao espectador a alegria que muitas vezes se perde na rigidez do cotidiano.
Diante de suas composições, somos convidados a suspender o julgamento e abraçar a intuição. Carol Couri nos lembra que a beleza muitas vezes reside no imprevisto, e que a verdadeira arte não é aquela que explica o mundo, mas aquela que nos ajuda a suportar — e celebrar — o mistério de estarmos vivos.





