O Escultor Guiado pela Intuição da Argila
Carlos Cabo
Carlos Cabo não esculpe apenas formas; ele dá vida a histórias silenciosas que falam através da textura, da linha e do volume. Nascido na Espanha, Carlos é um artista que transforma a argila em poesia, criando esculturas que transcendem o material para se tornarem expressões puras de emoção e movimento. Sua obra é uma jornada íntima entre o ancestral e o contemporâneo, onde cada peça carrega consigo a memória da terra e a essência da condição humana.
Os primeiros passos de Carlos no mundo da arte foram dados através da fotografia, onde aprendeu a observar e capturar a beleza fugaz do instante. Mais tarde, a pintura o atraiu, oferecendo-lhe a liberdade de explorar a luz e a cor em sua plenitude. No entanto, foi na cerâmica que ele encontrou sua verdadeira vocação, um meio que lhe permite combinar o tátil, o material e o simbólico em uma busca incessante por expressividade.
Aposentado como professor em 2012, Carlos dedicou-se integralmente à escultura em cerâmica, rompendo com as convenções e trilhando um caminho singular. Longe de se identificar com a figura do oleiro tradicional ou do escultor convencional, ele entrega-se a um processo intuitivo, guiado pela memória da argila e pela necessidade de moldar o que não se pode tocar. Cada peça é um diálogo entre o real e o imaginado, entre o ancestral e o contemporâneo.
O conceito por trás do trabalho de Carlos reside em algum lugar entre a abstração e a figuração, com uma clara inclinação para o minimalismo. Interessa-se pela síntese da forma, pela economia de elementos e pela expressão através do essencial. Ao longo de sua carreira, explorou uma variedade de temas, organizados em séries distintas, como "Continentes Sem Conteúdo", "Mundo Animal", "Geometria Orgânica", "Sonhando com o Mar" e "Anatomia Humana", cada qual com sua própria identidade e linguagem visual.
Dentro da série "Anatomia Humana", destacam-se suas figuras alongadas e estilizadas, que se afastam do realismo anatômico para abraçar uma representação simbólica da condição humana. Uma característica marcante dessas esculturas é a boca aberta, um gesto que transcende a estética para se tornar uma metáfora de comunicação, surpresa e admiração pela vida. A ausência dos braços, ou sua integração quase imperceptível, reforça a verticalidade e a sensação de movimento contido.
O traje das esculturas de Carlos desempenha um papel fundamental em sua identidade. Texturas complexas, aplicadas através de esgrafito ou estampagem, criam um contraste entre a superfície barroca da roupa e a pureza do volume. A escolha do grés, geralmente branco, com detalhes em terra sigillata vermelha ou marrom, adiciona cor sem perturbar a harmonia do todo.
Para Carlos, a argila não é apenas um material; é uma ligação com a terra, com a história e com sua própria memória. Sempre que possível, ele coleta argila diretamente do campo, especialmente do lugar onde nasceu, um espaço carregado de significado pessoal. Essa conexão com suas raízes permite que ele trabalhe com um material vivo, com sua própria identidade e história.
A recusa em utilizar esmaltes industriais reflete a busca de Cabo pela autenticidade e pela valorização da essência do material. Ele prefere a textura natural do grés e a profundidade proporcionada pela terra sigillata, uma técnica ancestral que refina a superfície sem esconder sua essência. No seu trabalho, a textura não é um ornamento, mas a pele da escultura, sua identidade visual e tátil.
Na cerâmica, Carlos Cabo encontrou um espaço de liberdade, um lugar onde o ancestral e o contemporâneo se entrelaçam, onde a textura e a forma contam histórias sem a necessidade de palavras. E é nesse diálogo silencioso com o material que ele continua a descobrir, aprender e criar, consolidando-se como um dos nomes mais relevantes da cerâmica contemporânea.





