Natureza como caso clínico
Bila Batista
Existe uma atenção que os médicos desenvolvem e que não se aprende em nenhuma outra escola: a de olhar o corpo como linguagem. De ler no detalhe aquilo que o todo ainda não revelou. Fabíola Alves Batista — Bila — carrega esse dom nas mãos. E quando essas mãos seguram um pincel, o que surge não é apenas imagem. É diagnóstico de outra ordem.


Catarinense de Urussanga, médica endocrinologista de formação e artista intuitiva de sempre, Bila construiu uma prática visual que não separa o que ela sabe do que ela sente. A ciência lhe deu o rigor; a arte, o lugar onde o rigor se torna leveza. Em suas aquarelas de pássaros e insetos, em seus cianótipos de borboletas e samambaias, em suas pinturas botânicas executadas com a minúcia de quem conhece a biologia da sobrevivência, há um mesmo gesto fundador: o de aproximar-se do vivo com reverência e precisão.
Os pássaros da série "Aves da Mata Atlântica" não pousam em galhos. Pousam no silêncio. Pintados com domínio da cor e leveza de pincelada, cada ave existe no papel com a mesma densidade com que existe na natureza: completa, incandescente, indiferente à nossa contemplação. Há os que Bila pinta contra o branco absoluto — presença pura, sem contexto, como espécie catalogada numa coleção que ninguém ainda classificou. E há os que ela deixa surgir de uma névoa aquosa, azul-esverdeada, como se o pássaro estivesse se formando ainda, chegando do interior de algo úmido e anterior. A aquarela, técnica que pune a hesitação e recompensa a entrega, serve perfeitamente a essa intenção. A tinta escorre, se acomoda, seca em bordas que nenhum pintor comanda inteiramente. Bila entende isso como colaboração, não como acidente.
Na série Insetos, o gesto se adensa. Besouros entregues ao olhar com a mesma reverência com que a ciência os estuda — restituídos em cor, inteiros, incandescentes. Um tórax laranja-fogo sobre élitros azul-royal. Um corpo inteiro em verde-esmeralda com listras que parecem talhadas à faca. A paleta não obedece à entomologia; obedece à verdade emocional da espécie. É aqui que a médica e a artista se fundem com mais nitidez: ambas sabem que o interior de um ser vivo só se revela a quem se dispõe a olhar com paciência. Há um idioma antigo no zumbido dos insetos, ela escreve. E o texto não está apenas nas palavras. Está na obra.
Os cianótipos chegam como uma mudança de registro — e de temperatura. Borboletas espelhadas em azul prussiano, samambaias em negativo branco sobre fundo índigo profundo: formas que a luz fixou antes que pudéssemos nomeá-las, numa linhagem direta de Anna Atkins. Na série Botânica, esse mesmo espírito atravessa as aquarelas de plantas carnosas — rosáceas pintadas com a paciência de quem sabe que certas coisas só se revelam devagar. Não há urgência nessas obras. Há persistência.






O que atravessa toda a produção de Bila é uma fidelidade ao mundo natural que não é nostalgia nem decoração. É atenção clínica convertida em amor — a mesma concentração com que ela lê um exame, depositada sobre a asa de uma borboleta, sobre o dorso iridescente de um besouro, sobre a fronde branca de uma samambaia impressa pela luz.
Ela se define como uma curiosa experimentadora em processo contínuo. A modéstia da frase não deve enganar. O que Bila Batista faz — com aquarela, com nanquim, com luz e com química — é construir um arquivo afetivo do mundo natural. Um atlas feito à mão, onde cada espécie pintada é também uma forma de dizer: estive aqui, vi isso, e era belo demais para deixar passar.
A medicina trata o que adoece. A arte, em Bila, trata o que se esquece.






