Anjos que Cantam com as Mãos
Bia Petraru
Não é preciso som para ouvir o que nasce das mãos de Bia Petraru. Bia trabalha com memória — e a memória, quando moldada com delicadeza, tem voz. Na edição anterior, ela nos levou ao picadeiro do circo, onde o riso e a poesia disputavam o centro do palco. Agora, na edição especial dedicada à música, ela nos abre outro universo: o dos anjos.



Feitos de papel machê e emoção, esses seres não parecem ter sido criados; parecem ter descido. Erguem-se com a leveza dos que conhecem os céus, mas carregam nos gestos a humanidade que os conecta a nós — as asas não são ornamentos, são confissões. E se ampliarmos o silêncio ao redor, algo extraordinário acontece: a arte de Bia começa a soar.
Suas esculturas evocam a mesma reverência ancestral dos cantos gregorianos — não pela estética religiosa em si, mas pela vibração do coletivo. Cada dobra do papel, cada relevo de cor, cada sombra suavemente projetada é como uma nota sustentada em uníssono: pura, inteira, indivisível. O coro não está fora da escultura; está dentro dela. A artista, como uma maestrina da matéria frágil, organiza volumes, texturas e pausas visuais que se transformam em ritmo para quem sabe observar.
O papel machê, tão humilde em origem, torna-se monumental em significado. Entre camadas, cola e pigmentos, Bia constrói não figuras estáticas, mas presenças. Seus anjos olham para nós com ternura, mas também com pergunta. Há algo de sagrado na maneira como ocupam o espaço — não o sagrado institucionalizado, e sim o sagrado que nasce do gesto humano quando ele toca o sublime.



Se no circo de Bia havia a gargalhada poética, agora há o silêncio lírico. O espetáculo continua, mas em outra frequência: antes o lúdico explodia para fora; agora o sagrado ressoa para dentro. Entre a música e a matéria, entre o som e o silêncio, a artista reafirma sua assinatura estética: transformar aquilo que julgamos comum em algo inesquecível.
Porque, quando feitos por Bia Petraru, até os anjos de papel machê cantam.


