O Som da Cor

Armando Paolillo Jr.

Não é preciso ouvir uma canção para perceber que há música nas telas de Armando Paolillo.Basta observá-las por alguns segundos — e o som surge, invisível, entre as cores. As figuras parecem pulsar em compasso, as sombras respiram em tempo marcado, e cada traço vibra como uma nota sustentada no ar. É pintura que se move, que tem corpo e ritmo, como se a tela fosse um vinil girando, traduzindo o silêncio em melodia.
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Armando não pinta o mundo como ele é, mas como ele ressoa. Em suas obras, a cor substitui o acorde, o gesto assume o papel da voz e o olhar encontra um lugar entre o som e a memória. Ali, a música deixa de ser apenas o que se escuta — torna-se o que se sente com os olhos.
A trajetória de Armando é marcada por contrastes que se harmonizam como acordes de uma mesma canção. Do rigor militar, herdou a disciplina e a precisão do olhar; da arte, absorveu o improviso, a entrega e o mistério. É nesse cruzamento entre ordem e intuição que nasce sua pintura — um realismo simbólico que vibra como um solo de guitarra em meio ao silêncio.
Cada obra sua é uma orquestra particular, em que cor, forma e conceito tocam em perfeita harmonia. Em “O Chamado”, inspirado na clássica “Stairway to Heaven”, o flautista não conduz à promessa dourada do paraíso, mas ao mergulho interior. Sua música é convite — não à fuga, mas ao encontro. É o som que nos guia pela escadaria das sombras até a luz da consciência, onde o ouro verdadeiro não reluz: emana.
Já em “Tem Alguém Aí?”, eco da icônica “Comfortably Numb” do Pink Floyd, o artista transforma alienação em metáfora pungente. A figura humana, hipnotizada pelo celular, é retrato de uma sociedade entorpecida. A guitarra abandonada aos pés denuncia o abandono dos dons, a perda da vibração interior. Há silêncio, mas é um silêncio que grita — e seu eco pergunta, sem piedade: ainda há alguém aí?
Em “Great Little Pearl”, a rebeldia de Janis Joplin se revela em pinceladas que tremem entre ternura e fúria. O olhar da cantora, sereno e melancólico, parece conter o instante antes do grito. Armando a retrata não como ícone, mas como alma vibrante — uma mulher que cantava o que sentia, e sentia o que o mundo não conseguia dizer. Sua voz, transformada em cor, é puro timbre emocional.
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Curiosamente, Janis também pintava. Poucos sabem que, entre 1965 e 1966, ela criou uma obra chamada “The Purple Painting”, também conhecida como “Two Ladies Playing Bridge”. Saber disso faz o encontro entre a Janis pintada por Armando e a Janis pintora ganhar um novo sentido — como se, em algum plano invisível, duas artes tivessem se encontrado e reconhecido.
Há algo de Pink Floyd em seu modo de pensar o realismo: técnica apurada, sim, mas a serviço de temas que ecoam transcendência e alienação, lucidez e sonho — polos que coexistem, como o som e o silêncio.
Quando pinta, o artista é maestro e instrumento, regendo um concerto invisível entre o que sente e o que vê. Sua arte nasce do mesmo lugar que a música: o intervalo entre o que se entende e o que se intui. É nesse espaço — quase sagrado — que ele encontra a melodia do que não pode ser dito.
E, quando o Coronel se cala e o Artista fala, é a alma quem canta — suave, profunda e infinitamente humana.
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