O Caminho de Volta
André Miagui
Quase tudo, nessas telas, é escuro. Um negro profundo, sem fundo, onde o olhar a princípio não encontra apoio. E então, no meio dessa extensão sem margens, a luz acontece — desce do alto em um feixe, abre um rasgo no horizonte, irrompe como um único evento numa sala às escuras. A obra de André Miagui começa por aí: pela descoberta de que a luz só se torna acontecimento quando tem toda a escuridão ao redor para emergir.
Esse céu não foi observado por um telescópio — foi imaginado. Durante a pandemia, nas noites passadas diante da janela envidraçada de seu ateliê, num oitavo andar do Anhangabaú, André ficava a olhar o alto e começou a pintar galáxias e aglomerados de estrelas que nunca existiram. O cosmos, em suas mãos, não é registro científico; é invenção. Cada tela é uma travessia celeste feita de memória e desejo — um lugar para onde se viaja sem nunca ter ido.
O que se vê não é uma paisagem, mas um limiar. O feixe que toca o solo, a linha vermelha que corta a distância, a coluna de luz que costura o céu à terra: tudo aponta para um instante de passagem, o segundo exato antes de algo acontecer, ou logo depois de ter acontecido. Não há enredo — há duração. A imagem se recusa a contar uma história e prefere sustentar um estado, o tempo suspenso de quem está prestes a chegar a algum lugar, ou a partir dele. É o silêncio de um plano que se estende mais do que o esperado, até o olhar parar de procurar a trama e aceitar apenas estar ali.
A série que reúne esses trabalhos chama-se Nach Hause Kommen — em alemão, “voltar para casa”. O título carrega o paradoxo que move tudo: parte-se em busca do desconhecido e, no caminho, encontra-se aquilo que nos constitui. A viagem mais distante é também a mais íntima. Por isso essas pinturas não explicam nada — elas guardam o inominável, e é justamente o que não se deixa nomear que sustenta a força do que se vê. Quanto menos a imagem diz, mais fundo ela alcança.
Vale saber de onde vem esse olhar. Nascido no Brás, no centro multicultural de São Paulo, André Miagui chegou à pintura por um caminho improvável: o da cozinha. Formado em gastronomia, atravessou a Europa trabalhando como chef — Alemanha, Itália, Portugal, Espanha —, tratando o sabor como linguagem antes de tratar a imagem como ofício. Foi estudar desenho em Madri, frequentou museus em Düsseldorf e voltou ao Brasil com uma certeza de poliglota: toda forma de criar é uma forma de traduzir o mundo. Do tempero ao pigmento, do paladar ao cosmos, é sempre o mesmo gesto — transformar experiência em matéria sensível.
E a luz continua descendo, ligando o escuro de cima ao escuro de baixo, sem que se saiba se ela chega ou parte. Talvez seja esse o ponto: não se trata de alcançar o fim da viagem, mas de permanecer no instante em que tudo ainda é possível — o limiar onde partir e voltar para casa são, enfim, o mesmo movimento.
Instagram: @miaguiarts
