Ana Quintanas

Antes das Palavras

Antes de saber explicar o que sentia, Ana Quintanas já sabia pintar.

Essa talvez seja a chave mais íntima para compreender sua relação com a arte. A pintura não chegou depois, como escolha profissional ou linguagem encontrada na vida adulta. Chegou cedo, quando certas experiências ainda eram grandes demais para caber em palavras. Nascida em Registro, no interior paulista, ela chegou ainda menina a Medianeira, no Paraná, e foi ali que encontrou o curso de pintura em tela que desejava fazer havia anos.

Mas nem sempre havia telas.

Em casa, restos de MDF de armários e guarda-roupas tornavam-se suporte para refazer, sozinha, o que aprendera nas aulas. Cada pintura existia duas vezes: uma com a professora ao lado, outra sem ninguém — e era na segunda que ela descobria o que de fato tinha entendido. Certa vez, sem ter onde pintar, escolheu a própria parede. Havia naquele gesto infantil algo que permaneceria: a pintura precisava acontecer.

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O lugar onde ficar

A infância de Ana atravessou períodos difíceis. Quando falar se tornou complicado, pintar ganhou outra dimensão. Ela passava horas diante das tintas, experimentando misturas e descobrindo aquilo que o pincel conseguia dizer.

A arte tornou-se refúgio, mas reduzi-la a isso seria pouco. Porque um refúgio nos protege do mundo. A pintura ensinou Ana a voltar para ele.

Vem daí a atenção ao que poderia passar despercebido: uma rua, uma casa, uma pessoa, um animal, uma luz sobre uma construção marcada pelo tempo. As paisagens urbanas ocupam lugar especial em seu olhar, mas a referência nunca é destino. Ana retira, acrescenta, transforma. O mundo oferece a primeira imagem; a pintura decide o que fazer com ela.

Por isso, ela não deseja se prender a um único assunto. Seu tema é aquilo que consegue fazê-la parar.

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Aquilo que passa adiante

Ana divide o ateliê entre a própria produção e o ensino, atividade da qual não pretende se afastar. Continua estudando e buscando novas técnicas, não apenas para ampliar sua pintura, mas também aquilo que pode compartilhar. A menina que encontrou na pintura uma linguagem quando não conseguia falar tornou-se a mulher que acompanha outras pessoas na descoberta de uma linguagem própria. O que um dia foi abrigo passou a ser também passagem.

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Ainda há tinta

Ana é casada com Felipe, que conheceu ainda menina em Medianeira e que acompanhou cada etapa desse caminho — hoje, trabalha com ela no ateliê. É mãe de Benício, e reconhece o cansaço e a exigência, mas também uma felicidade que parece ter reorganizado partes de sua própria história. É difícil separar, em sua trajetória, pintura e vida. Uma não ilustra a outra. Elas cresceram juntas.

E ainda existe algo daquela menina diante de um pedaço de MDF, misturando duas cores apenas para descobrir o que aconteceria.

Mudaram as superfícies. Mudou o ateliê. Mudou a vida.

A curiosidade diante da tinta, não.

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