A Sintaxe Poética de Alcina Morais
Olho d’Água
No universo de Alcina Morais, a fotografia é o ponto de partida, não o destino. Seu trabalho não se contenta em registrar a cidade; ele busca sua essência poética. Com um olhar que já dialogou com paisagens da Europa à América Latina, sua câmera se torna uma ferramenta para reorganizar o fluxo da metrópole, transformando-o em uma composição de formas, cores e silêncios. Sua obra nos lembra que toda imagem pode ser um verso, e toda cidade, uma página em branco à espera de seu poeta.
A chave para decodificar sua lente não está em um manual de técnica, mas no título de seu premiado livro de poesia: Olho d’Água. A expressão evoca uma fonte, uma nascente, uma visão que brota da terra. Nascida em Minas Gerais, sua obra é atravessada por essa origem, por essa memória de uma paisagem interior. Como, então, esse "olho d'água" aprendeu a enxergar o asfalto do Rio de Janeiro, onde vive há mais de quatro décadas? Ele não secou; ele se adaptou. Aprendeu a encontrar o fluxo no trânsito, a ver reflexos no aço e a perceber que o concreto também tem suas texturas, suas fissuras, suas próprias formas de vida.
O processo criativo de Alcina é um ato poético em si. Sua sintaxe começa com a fragmentação. Diante do texto excessivo e caótico da metrópole, ela não tenta capturar a frase inteira. Em vez disso, com precisão cirúrgica, isola "recortes inusitados" — um ângulo de cor em uma fachada, a sombra geométrica de um corrimão, a curva de um viaduto. Cada clique é a seleção de um verso visual, arrancado de seu contexto para que possa ressoar com uma força própria e inesperada.
Uma vez isolado, o fragmento passa por uma alquimia. A realidade, que era o ponto de partida, é agora apenas a matéria-prima para uma transfiguração. Nas mãos de Alcina, o figurativo se dissolve em abstração, o cotidiano flerta com o surreal. É aqui que entra o estágio final: a reinvenção digital. A adição de cores e texturas não é um adorno, mas um ato de significação. Como uma poeta que escolhe minuciosamente cada adjetivo, Alcina aplica camadas de cor para definir a temperatura emocional da imagem, para dar ritmo à composição e para guiar o olhar do leitor a um novo entendimento.
O resultado é uma cartografia da liberdade. Onde muitos artistas enxergam a cidade como um labirinto de opressão, Alcina a revela como um vasto playground para o olhar. Suas obras convidam a uma interação lúdica; elas nos desafiam a abandonar nossas leituras habituais do espaço urbano e a nos engajarmos em um jogo de descoberta. Suas composições não nos dizem "isto é um prédio", mas nos perguntam: "o que mais isso poderia ser?".
Alcina Morais tem obras apresentadas em exposições nacionais e internacionais, entre Europa e América Latina, consolidando uma trajetória que ultrapassa fronteiras sem jamais perder o vínculo com a alma brasileira. Sua fotografia fala uma língua universal: a do afeto visual, da curiosidade estética, do encontro entre o humano e o urbano.
Ao fundir a disciplina da palavra com a espontaneidade do clique, Alcina Morais nos oferece mais do que belas imagens; ela nos dá uma lição sobre percepção. Ela demonstra que a poesia não está restrita ao papel, mas é uma forma de estar no mundo, uma sensibilidade que pode transformar qualquer linguagem. No final, contemplar sua obra é entender a jornada de sua visão. Nas mãos de Alcina Morais, o Olho d’Água não se perdeu na metrópole. Ele aprendeu a florescer nas frestas do concreto.











