Como uma gaivota a voar
Adriana Soares
"Se um pinguinho de tinta... Cai num pedacinho azul do papel... Num instante imagino... Uma linda gaivota a voar no céu"....



A arte de Adriana Soares é um exercício de dualidade. Em sua obra, a precisão cirúrgica da formação inicial encontra a liberdade líquida da aquarela; a opulência histórica de Versailles dialoga com a força vital da Amazônia. É nesse limiar que sua pintura se estabelece: um espaço onde o rigor é quebrado pela água, e a história é reescrita pela cor.
Para esta edição especial dedicada à música, Adriana nos presenteia com uma homenagem a Toquinho, um gesto que transcende o retrato para se tornar uma declaração de método. A música do artista, segundo ela, não a leva tanto ao tempo, mas ao espaço: "É praieira, é mar, é barquinho, é velejar." Essa leveza e esse movimento suave são a própria essência da aquarela.
A técnica, para Adriana, é um paradigma a ser rompido. Cirurgiã-dentista, acostumada ao controle e à precisão, ela encontra na aquarela o descontrole necessário. "A aquarela vem para 'quebrar' e 'romper' com esse paradigma", confessa. O descontrole, a mancha solta, a água que assume o comando, tudo isso se alinha à leveza alegre da Bossa Nova de Toquinho. A aquarela exige pausa, espera e aceitação do ritmo da água, criando um tempo suspenso onde se aprende a escutar e a se deixar conduzir.
Nesta obra, o azul domina o fundo, remetendo à primeira memória musical da artista e à sua paixão pelas águas — do mar, do rio, da cachoeira. É a cor da infância e, simultaneamente, o símbolo da origem da luz que, na aquarela, nasce do branco do papel. Já o sol amarelo, símbolo íntimo que sempre retorna aos seus desenhos, simboliza essa origem luminosa que dá vida à imagem antes mesmo da cor.
A dualidade de sua obra se estende aos seus temas. Se em suas "Flores Europeias" ela evoca a disciplina e o rigor dos jardins de Versailles, retratando a beleza luxuosa e complexa de figuras como Maria Antonieta, na Amazônia ela encontra a liberdade e a força vital. Sua arte prova que a beleza pode habitar tanto na simetria perfeita quanto na assimetria lírica e única da natureza selvagem.


Sua pintura é mais sentimento do que melodia, traduzindo um estado emocional de afeto. Ao permutar o bisturi pelo pincel, ela nos deixa uma mensagem: "Leve a vida com mais leveza, seja uma gaivota voando 'a imensa curva Norte- Sul', porque existe muito céu e mar a serem explorados."
Trata-se de um convite a velejar, a deixar a água assumir o controle e a celebrar a doçura da memória. O que fica é a certeza de que, em suas mãos, a aquarela é a própria Partitura da Leveza, lembrando-nos que, "com um pingo de tinta", é possível recriar o mundo.
E como na canção de Toquinho, a artista nos lembra que "com um pingo de tinta..." é possível desenhar um mundo inteiro. Essa conexão entre arte e música se tornou um hino de esperança para a artista. Durante a pandemia, Adriana, então vice-presidente da ABOPED-MT, viu a canção "Aquarela" ser usada para finalizar um congresso online, com todos os participantes cantando juntos. Foi um momento de profunda emoção que marcou a música como um símbolo de resiliência e mudança, reforçando a missão de sua arte: ser um caminho de reflexão e leveza.





