Adelaide P. Lima

A Prescrição da Beleza
Para Adelaide Pinheiro, a pintura nunca foi apenas uma questão de olhar; é uma questão de diagnóstico. Médica de corpos e psicanalista de almas, ela aproxima-se da tela com a mesma acuidade clínica que reserva ao consultório, mas com uma liberdade que só a arte permite: a de administrar cores em vez de fármacos. Nesta edição de Música que se Vê, Adelaide não retrata ícones sonoros; ela ausculta suas essências. Diante de Mercedes Sosa e Hermeto Pascoal, sua paleta opera como um estetoscópio visual, capturando não a aparência física, mas a frequência interna que precede o som.
artnow-report-arte-de-todas-as-formas-art-artistic-obra-de-arte-a-melhor-revista-de-arte
artnow-report-arte-de-todas-as-formas-art-artistic-obra-de-arte-a-melhor-revista-de-arte
Sua prática é uma clínica da cor, onde a arte se torna o ponto de convergência para a cura, um espaço onde a ciência do corpo e a ciência da alma se encontram para prescrever a beleza.
A profundidade de sua percepção é o motor da criação. Se a medicina mapeia o organismo e a psicanálise desvela a memória, a pintura amplifica a experiência: "A arte chacoalha os sentimentos", declara. O impacto visual é apenas o limiar; a textura e o contraste operam como catalisadores sinestésicos, despertando o paladar, a memória e o inconsciente. A obra é o laudo estético, a lente que penetra a superfície para revelar a pulsação oculta da realidade.
Nesta edição da ArtNow Report, a artista volta-se para a ressonância da música. O retrato de Mercedes Sosa é uma arqueologia do afeto. Se a cantora afirmava que "cantar é gritar com o coração", Adelaide traduz essa urgência para a tela: "Nossos olhos também gritam de emoção". O silêncio da pintura é, paradoxalmente, um ruído emocional inegável manifestado na codificação cromática. A homenagem transcende o canto; é um tributo à mulher-território. A roda ancestral e os pontilhados que simbolizam "os irmãos e irmãs do mundo" transformam o quadro em um manifesto, onde a arte se torna a memória que perpetua o legado.
Adelaide não pinta apenas "a cantora". Pinta a mulher que carrega um continente. “Ouvir Mercedes é ouvir o chamado de uma mulher decidida, corajosa e sensível”, afirma. Por isso, seu retrato não é celebração; é convocação — para a liberdade, para a solidariedade, para o pertencimento. A artista traduz em pigmento aquilo que a voz de Mercedes fazia em timbre: elevar o outro.
O contraponto surge com Hermeto Pascoal. Se Mercedes era a voz que arrebatava a terra, Hermeto é o mundo inteiro transformado em ar e som. É justamente essa atmosfera caótica, luminosa e genial que Adelaide captura: não a figura do músico, mas o campo eletromagnético que o cerca. Hermeto é, ele mesmo, um instrumento — e na pintura ele se torna estado da matéria. Seus cabelos parecem vento; seus óculos, portais para o imprevisto.
A arte de Adelaide Pinheiro Lima é, em última análise, uma prescrição poética para um planeta adoecido em sua matéria e traumatizado em sua memória. É a manifestação da pulsão de vida, um receituário para que o mundo possa continuar a sonhar.Adelaide não pinta a voz. Adelaide pinta o que a voz desperta.
E, diante de suas obras, compreendemos que as imagens mais profundas não se veem — se ouvem.
artnow-report-arte-de-todas-as-formas-art-artistic-obra-de-arte-a-melhor-revista-de-arte
artnow-report-arte-de-todas-as-formas-art-artistic-obra-de-arte-a-melhor-revista-de-arte
artnow-report-arte-de-todas-as-formas-art-artistic-obra-de-arte-a-melhor-revista-de-arte
error: Content is protected !!